A Polícia Federal fez uma operação de busca e apreensão, nesta quinta-feira (9), contra o publicitário Thiago Miranda, dono da agência Mithi, contratado para o projeto de gestão de crise de Daniel Vorcaro, do Banco Master, que envolveu ataques ao Banco Central.
Diálogos entre o ex-banqueiro e Miranda, entre março e abril de 2025, também mostraram tentativas dos dois de "frear" o trabalho da jornalista Malu Gaspar, colunista do jornal O Globo, realizando uma busca por seus dados privados.
O publicitário foi procurado pela reportagem, mas não respondeu até a publicação deste texto.
As investigações apuram, ainda, a atuação de possível organização criminosa dedicada à intimidação de jornalistas, ao monitoramento ilícito de pessoas ligadas a autoridades públicas, à obtenção indevida de informações sigilosas e à adoção de medidas destinadas a interferir em investigações criminais.
Segundo a PF, os fatos investigados podem, em tese, configurar crimes contra o sistema financeiro nacional, organização criminosa, embaraço à investigação de organização criminosa, além de outros delitos correlatos, incluindo possíveis violações de dados e de dispositivos informáticos.
A decisão, do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) André Mendonça, afirma que a autoridade policial relatou que não haviam sido identificados elementos que justificassem o aprofundamento das investigações contra Miranda.
Contudo, a partir dos novos elementos fáticos relevados em matérias jornalísticas, foi produzida uma investigação que corroborou a existência de diálogos publicizados pelas matérias.
Diálogos entre o ex-banqueiro e Miranda, em 2025, mostraram que os dois queriam intimidar a jornalista. As conversas foram divulgadas pelo site Fatos on-line e confirmadas pela Folha. Num deles, Vorcaro afirma a Miranda que eles teriam que "tentar pegar algo dessa mulher no pessoal", ao que este responde: "Exatamente. Ela joga baixo. Vou revirar a vida dela".
Foram juntados elementos na investigação que indicariam, segundo a polícia, o potencial acesso indevido a informações privadas, como é o caso dos dados financeiros, "observando-se latente abuso ao buscar informações de cunho familiar para atingir os objetivos de intimidação e coação".
O publicitário também estaria por trás, segundo as suspeitas dos investigadores, dos ataques coordenados contra o BC e o ex-diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução da autarquia, Renato Gomes.
As informações estão em documentos do chamado "Projeto DV", aos quais a Folha teve acesso. O nome faz alusão às iniciais do ex-banqueiro.
A polícia identificou a centralidade do papel exercido pelo publicitário em iniciativas voltadas ao recrutamento dos influenciadores, "com o emprego de táticas aptas a configurar, em tese, práticas assemelhadas a assédio e intimidação".
"Os elementos analisados apontam que Thiago Miranda desempenhava papel central nessas iniciativas, sendo o principal responsável por realizar pesquisas e levantamentos acerca da vida privada da jornalista em questão", diz a decisão.
A PF também ouviu o André Salvador, da empresa Unltd, que teria afirmado ter sido procurado para tratar de um trabalho de gerenciamento de reputação e gestão de crise para um importante executivo.
Apenas após a assinatura, segundo o seu depoimento, lhe foi revelado que ele deveria gravar vídeos indicando que o Banco Master teria sido "vítima" do Banco Central, considerando que a sua liquidação seria indevida.
Ainda de acordo com as conversas analisadas, o publicitário costumava informar o andamento das buscas, relatar sobre a análise de processos judiciais antigos e coordenar a mobilização de equipe dedicada a localizar informações que pudessem ser consideradas sensíveis ou comprometedoras para a jornalista.
Miranda encaminhou prints ao ex-banqueiro de conversas que teve com a jornalista Consuelo Dieguez, da revista Piauí, e com Renato Breia, sócio da consultoria Nord Investimentos. Ele teria ficado contrariado com a postura da jornalista, que se recusou a fazer a retirada do conteúdo solicitado, segundo as investigações.
Os contratos com os influenciadores do Projeto DV foram firmados pela agência Mithi. Somados, chegavam a R$ 8 milhões, mas a maior parte foi interrompida após a PF começar a investigar a onda de críticas contra o BC, em janeiro.
As orientações do projeto para as publicações eram direcionadas de acordo com o perfil de cada página, com indicações para títulos, textos, fotos e roteiros para vídeos curtos do Instagram. Alguns dos contratados cumpriram os direcionamentos à risca.
Dos R$ 8 milhões descritos nos contratos, Miranda fez pagamentos de R$ 3,5 milhões entre o fim de dezembro de 2025 e 5 de janeiro deste ano. As transferências ocorreram após ele ter recebido o mesmo valor da Super Empreendimentos, empresa ligada a Vorcaro.
Comentários: