A equipe de campanha do presidente Lula (PT) avalia promover um evento voltado a evangélicos nas próximas semanas, provavelmente no Rio de Janeiro.
A estratégia para se aproximar desse eleitorado, que tende a apoiar mais seu adversário Flávio Bolsonaro (PL-RJ), divide o grupo do petista.
Parte dos aliados defende que ele adote ações diretas, como atos específicos para o segmento. Outra ala afirma que esses eventos soam artificiais e prega uma abordagem mais sutil.
"A gente entendeu que é preciso ter um trabalho direcionado [aos evangélicos], até para combater a desinformação", afirma Gutierres Barbosa, integrante da Igreja Batista Nazareth, de Salvador, e coordenador do Setorial Inter-religioso do PT.
Ele diz que eventuais atos do presidente voltados a esse público deverão ocorrer em um espaço separado das igrejas, com convites para líderes religiosos.
Pesquisa Quaest divulgada no início de agosto mostrou que Lula tem 33% das intenções de voto no segundo turno entre evangélicos, e Flávio, 48%. O Censo de 2022 mostrou que cerca de 27% da população do país é evangélica.
No eleitorado total, Lula tem empate técnico com Flávio, com 43% a 40%. A margem de erro é de dois pontos percentuais.
Os aliados mais próximos do presidente da República que, reservadamente, criticam a organização de eventual ato para evangélicos argumentam que as ações do governo se destinam a todos os segmentos da sociedade, independentemente da religião.
Uma delas seria Lula suavizar seu discurso, mais na forma do que no conteúdo. Foram citados dois exemplos de manifestações do presidente que, por essa análise, atrapalham a aproximação com o público religioso em geral.
O primeiro foi a frase que Lula repetiu inúmeras vezes ao longo da campanha de 2022, que tinha "tesão de 20 anos". O segundo, o discurso no Palácio do Planalto no qual Lula mostrou o dedo do meio.
Um colaborador afirma que o presidente sempre se disse cristão, antes mesmo de isso se tornar um tema relevante na política.
Além disso, é mencionado como ponto forte de Lula para a conversa com evangélicos o fato de ele ter indicado Jorge Messias para uma vaga no STF (Supremo Tribunal Federal). O advogado-geral da União, que é membro da Igreja Batista, foi rejeitado pelo Senado.
"Encontros do presidente com denominações evangélicas, como a Assembleia de Deus, são fundamentais e falam muito para o segmento na sua plenitude", disse ela.
A vereadora de Goiânia e candidata a deputada federal Aava Santiago (PSB), da Assembleia de Deus Ministério de Madureira e aliada do presidente, disse que os evangélicos estão exaustos da politização das igrejas e que o petista acertou ao não criar um "cabo de guerra" com o bolsonarismo.
A vereadora defendeu foco em ações como a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000, a regularização de dívidas no Desenrola e a defesa do fim da escala 6x1.
Segundo ela, essas medidas aumentam a capacidade das pessoas de colaborar com a manutenção da igreja por meio do dízimo e o tempo disponível para congregar com a comunidade, pontos sensíveis em círculos evangélicos. "[É preciso] ter a capacidade política de associar os resultados concretos das decisões do governo a valores caros ao evangelho", afirmou.
A deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ), um dos nomes que historicamente buscou pontes entre Lula e o eleitorado evangélico, disse à reportagem que uma das preocupações é não fazer distinções entre grupos evangélicos de diferentes posicionamentos -desde os de esquerda até os mais conservadores.
"Nós temos todo o cuidado de não selecionar, mas dar o mesmo tratamento que nós já vínhamos dando". Benedita, que é integrante da Igreja Presbiteriana Betânia, disse que a preocupação com o segmento em seu grupo político é antiga.
Lula é católico, mas em algumas declarações públicas passou a citar uma identidade religiosa mais abrangente, a de cristão, que inclui evangélicos.
Em setembro do ano passado, o petista deu entrevista ao lado da mulher, a primeira-dama, Janja, ao podcast Papo de Crente. O programa é feito por um grupo simpático ao petista. Na época, um dos vídeos mais populares do canal era intitulado "Coalizão de evangélicos contra Bolsonaro".
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