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Eleições 2026

'Direita prova do próprio veneno', diz sociólogo do caso N. Sra.

A desinformação da vez prega que Flávio Bolsonaro (PL) quer resgatar um projeto de lei para remover a santa do posto de padroeira do Brasil.

'Direita prova do próprio veneno', diz sociólogo do caso N. Sra.
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Não deixa de ser irônico que a mesma direita que tanto difundiu fake news de frete religioso contra adversários seja atingida em cheio por uma desinformação da mesma natureza -e pior, envolvendo Nossa Senhora Aparecida, símbolo católico enraizado na cultura popular. A desinformação da vez prega que Flávio Bolsonaro (PL) quer resgatar um projeto de lei para removê-la do posto de padroeira do Brasil.

"A direita está provando do próprio veneno", diz Paul Freston, sociólogo inglês naturalizado brasileiro e pioneiro nos estudos de pentecostalismo e política. "O feitiço virou contra o feiticeiro."

A notícia falsa de que Lula (PT) fecharia igrejas foi reciclada em todas as eleições, lembra. A primeira delas, em 1989, escancarou atritos entre setores católicos e um incipiente bloco evangélico. Freston entrevistou dois anos depois o pastor José Wellington Bezerra da Costa, por anos presidente da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil.

Costa lhe disse que evangélicos tinham informações "de que a CNBB estava com um esquema armado para estabelecer a religião católica como a única religião oficial". Nunca houve qualquer indício disso.

Freston lançou em 1993 tese de doutorado na Unicamp, que será relançada em dezembro pelo Instituto de Estudos da Religião, sob o título "Protestantes e Política no Brasil: Do Império ao Impeachment de Collor".

Pergunta- Décadas se passaram, e o campo progressista continua empacado no diálogo com evangélicos, apostando em estratégias que o sociólogo julga equivocadas, como pôr a primeira-dama Janja na linha de frente dessa mediação. "Que esquerda é essa que acha que não pode aprender nada com a religião mais bem-sucedida entre os pobres?"

Por que o engajamento bolsonarista lhe parece menor nas igrejas em 2026?

Paul Freston - Pode ser uma combinação de duas coisas. Flávio tem, digamos, os senões, então [os fiéis] não se entusiasmam tanto. Por outro lado, talvez um pouco de reavaliação depois de 2022, um pouco de "puxa, excedemos, o tiro saiu pela culatra, tem que ser um pouco mais sutil". Talvez tenha tido menos daquele negócio de "então procure outra igreja" [para quem discordava da pregação política de direita]. Acho que isso pegou muito mal.

PF - Faz parte da crítica evangélica tradicional à idolatria. Aparecida é o suprassumo da ideia da idolatria, né? E é o símbolo supremo do catolicismo, que não é compartilhado com o protestantismo. Nos pontos mais extremos, tem até o componente racista da negritude da imagem, a ideia de "ah, mas que coisa feia" e tal.

P. - Há risco de uma espécie de guerra religiosa no país?

O que está acontecendo agora é outro nível, é a concorrência na religião civil para se afirmar na praça pública. A Assembleia de Deus teve, nos anos 1980, uma tremenda mudança de estratégia. Saiu da ideia de "crente não se mete em política" para "irmão vota em irmão". Tem uma citação da entrevista que fiz com José Wellington em 1991. Ele disse assim: "Nós tínhamos informações de que a CNBB estava com esquema armado para estabelecer a religião católica como a única religião oficial".

P. - A fala de Flávio sobre decretar o Brasil para Cristo é uma reatualização dessa disputa por espaço religioso?

P. - À primeira vista, ela pode parecer uma frase genérica cristã, embora seja uma fórmula tipicamente pentecostal. Qual seu apelo entre evangélicos?

PF - Na Zâmbia aconteceu algo interessante nos anos 1990. Ganhou a presidência um cara de origem sindical [Frederick Chiluba], mas que tinha se convertido a uma igreja com uma teologia forte. A primeira coisa que fez foi uma cerimônia para limpar o palácio dos espíritos maus e declarar a Zâmbia uma nação cristã. Alguns setores ficaram entusiasmados com a ideia da guerra espiritual. Outros, horrorizados, perguntando o que isso significava concretamente, se haveria uma igreja oficial ou obrigatoriedade de ser cristão para votar. Não significava nada disso na prática.

Essa ideia de "o Brasil será do Senhor Jesus Cristo" não significa necessariamente que vai se instituir uma teocracia que vai coibir os direitos civis de não cristãos. É uma abordagem muito mística da realidade. Para boa parte dos evangélicos isso pega. Para outra, não. Acham isso ridículo e sem efeito nenhum, defendendo que o país deve ser do Senhor através de políticas para os pobres.

P. - Quando se vê isso na boca de um candidato à Presidência, existe uma agenda eleitoral clara. O Flávio tem uma relação de pertencimento ao mundo evangélico que o pai não tem, mas será que num governo ele tomaria medidas assim, que não teriam apoio nem de boa parte dos próprios evangélicos?

PF - Com certeza também não teria apoio dos não evangélicos, o que levaria rapidamente a um desgaste político severo. Duvido que ele esteja tão alienado da realidade. Acho que isso é oportunismo eleitoral.

P. - O sr. já definiu Jair Bolsonaro como o primeiro presidente pancristão que tivemos, um híbrido entre católico, como ele se declara, e evangélico, base importante para ele. Por que Flávio, que se diz evangélico, parece ser menos querido do que o pai nas igrejas?

P. - Como o ataque à CNBB?

PF - Sim, exato, o que foi um passo em falso. Ele enfraqueceu a própria capacidade que o pai tinha de navegar pelos dois lados do mundo cristão.

Já em 1986, na Assembleia Constituinte, havia o boato de restaurar uma religião oficial [o catolicismo]. E em todas as eleições com participação do Lula havia o discurso de que o PT vai fechar igrejas. Mesmo após anos de governos petistas sem nenhuma igreja fechada, sempre ressuscitam esse medo. E é irônico que, com essa história de Aparecida, a direita está provando do próprio veneno. O feitiço virou contra o feiticeiro.

P. - Explorar Aparecida é uma boa estratégia para o PT?

P. - Em 2002 e 2006, Lula teve 2 em cada 3 votos evangélicos no segundo turno. Hoje ele tem uma média de 30% desse eleitorado. O que houve?

PF - Foi importante para o bolsonarismo construir apoio maciço entre evangélicos. As características sociais desse grupo são o inverso da sua base eleitoral inicial. Quem é mais propenso a votar no Bolsonaro? Quem é mais rico, branco e homem. Já o mundo evangélico é predominantemente mais pobre, feminino e não branco. Essa base evangélica foi fundamental para tornar o bolsonarismo um movimento de massas.

PF - Não há uma resposta única. De um lado, falhas históricas do próprio PT e da esquerda. Em 1991, fiz uma palestra chamada "10 coisas que a esquerda precisa saber sobre os evangélicos, mas nunca teve coragem de perguntar". Não dá para manter uma postura de indiferença, falar dos evangélicos tapando o nariz. O pessoal não é burro, percebe quando está sendo tratado dessa forma. Que esquerda é essa que acha que não pode aprender nada com a religião mais bem-sucedida entre os pobres? Falta um pouco de humildade, de vontade de ouvir.

P. - Quão popular é a teologia do domínio nas igrejas?

P. - O PT ensaia estratégias para se aproximar de evangélicos. Uma delas é colocar a primeira-dama Janja na linha de frente dessa comunicação. Como avalia?

PF - A ideia de usar a Janja como uma contra-Michelle não cola. A imagem popular dela no meio evangélico não é positiva. E se entregaram esse papel a ela como prêmio de consolação, é pior ainda, porque mostra novamente certo desprezo pelo campo.

FONTE/CRÉDITOS: Jcnet (Por Anna Virginia Balloussier | da Folhapress)
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