A Polícia Civil de São Paulo indiciou hoje os sócios da academia C4 Gym, onde uma mulher foi socorrida e, posteriormente, morreu, no último fim de semana. O número de pessoas com sinais de intoxicação subiu para sete.
Sócios da academia foram indiciados por homicídio com dolo eventual. O dolo eventual ocorre quando o agente não deseja diretamente o resultado morte, mas assume o risco de produzi-lo ao adotar determinada conduta.
Apesar do indiciamento, nenhum dos sócios foi preso. Porém, a Polícia Civil pediu a prisão deles ao judiciário, responsável por apreciar a solicitação.
Procurado, delegado do caso informou que novas informações sobre o andamento das investigações serão divulgadas amanhã. Uma coletiva de imprensa foi marcada para o meio-dia.
Funcionário que limpava a piscina afirmou ontem que um dos sócios da academia apagou mensagens enviadas a ele com orientações sobre a limpeza do local. A informação foi repassada pelo manobrista do estabelecimento, Severino José da Silva, em depoimento à polícia. Na ocasião, ele afirmou que, por ordem dos donos da academia, realizava serviços de limpeza e manutenção da piscina, mesmo sem habilitação técnica para realizar a tarefa.
Instruções sobre limpeza e manejo de produtos usados na piscina eram repassadas ao manobrista apenas à distância, de acordo com delegado. Nas mesmas trocas de mensagens mencionadas pelo funcionário, um dos sócios enviava orientações relacionadas à proporção de cada produto químico que deveria ser usado para a limpeza da água, conforme Alexandre Bento.
Questionada sobre o assunto, a academia não quis se manifestar sobre as alegações. O espaço segue aberto para eventuais posicionamentos.
Funcionário afirmou não ter habilitação para ser piscineiro
Severino também afirmou à polícia que não tem formação para manusear produtos químicos e que o dono da academia sabia. Ele revelou que assumiu a função da limpeza da piscina após o antigo manobrista sair da empresa. O antigo funcionário repassou as instruções de que o procedimento consistia em medir os níveis da água e do cloro, fotografar o resultado e enviar a imagem diretamente ao dono da academia, que orientava quais produtos deveriam ser utilizados e em qual quantidade.
No último sábado (7), o funcionário contou que preparou de seis a oito medidas de cloro para limpar piscina. Ele detalhou que realizou o teste e enviou a foto para o dono da academia, recebendo como orientação que fossem aplicadas as medidas do cloro. Apesar disso, ele revelou que não chegou a aplicar o produto, apenas preparou a solução.
Balde com água e cloro foi colocado a cerca de dois metros da borda da piscina. Sete alunos ainda nadavam na piscina, quando o homem é visto em câmeras de segurança deixando o recipiente no local.
Reação química pode ter causado intoxicação
Em poucos minutos, a polícia acredita que uma reação química tenha liberado gases e causado a intoxicação nas vítimas. "Ele esperava acabar a aula para jogar o produto na água que estava bastante turva, em razão do uso da piscina. Mas começaram a exalar os gases e as pessoas foram asfixiadas", afirmou ontem o delegado responsável pela investigação, Alexandre Bento.
Manobrista disse ter percebido que havia movimentação incomum na academia, com uma mulher sendo socorrida pelo marido. Ele esclareceu que voltou à área da piscina com um pano no rosto, para cobrir a boca e o nariz, e retirou o balde do local.
Investigadores já conseguiram acessar o celular dele. Ele forneceu a senha do aparelho para que as mensagens fossem acessadas, de forma a colaborar mais rapidamente com a investigação.
A Polícia Civil investiga se a morte da mulher foi causada pela exposição a gases dentro do ambiente da piscina. A professora Juliana Faustino Bassetto, 27, tinha problemas respiratórios e iniciou aulas de natação no local para tentar melhorar seus sintomas, segundo o delegado do caso.
Juliana morreu na noite de sábado (7). Ela e o marido participavam de uma aula de natação e passaram mal logo depois de entrarem em contato com a água. O casal foi até o Hospital Santa Helena, em Santo André, mas a professora sofreu uma parada cardíaca e não resistiu. A polícia apura se houve intoxicação por algum produto usado para limpar a piscina.
O marido da professora, Vinicius de Oliveira, continua internado. Ele está em estado grave na UTI.
A academia não tinha alvará para funcionar, segundo a Polícia Civil. A instalação elétrica da piscina estava ligada à cozinha da academia e os produtos para limpeza da piscina também estavam em local inadequado, segundo os investigadores.
O que diz a academia
Em nota enviada ontem, a direção da Academia C4 Gym lamentou "profundamente" o ocorrido após a morte da professora. Também informou que prestou "imediato atendimento a todos os envolvidos" e que tem mantido contato direto com as pessoas envolvidas a fim de oferecer todo o suporte.
Assim que os alunos relataram odor forte na área da piscina, toda a academia foi evacuada e o SAMU e o "Corpo de Bombeiros foram acionados. Devido à demora do SAMU, um dos atendentes da academia solicitou auxílio a uma viatura da GCM, que se dispôs a socorrer Juliana. Os policiais informaram que poderiam levá-la apenas ao hospital mais próximo, na Vila Alpina, mas os acompanhantes optaram por levá-la a uma unidade de seu plano de saúde, em Santo André", disse a C4 Gym, em nota.
Academia afirmou ainda que possui Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros, está regular junto ao CREF (Conselho Regional de Educação Física) e mantém alvará da Vigilância Sanitária válido desde 2023. "O advogado da academia, inclusive, esteve presente e solicitou acompanhar a vistoria do Corpo de Bombeiros e da Polícia Civil, mas o pedido não foi autorizado", divulgou na mesma nota.
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