A desistência da primeira-dama, Janja Lula da Silva, de participar do desfile da escola de samba que homenageou o presidente da República causou alívio entre aliados próximos do petista, que receavam um desgaste político após a apresentação no Rio de Janeiro.
Para eles, a participação de Janja daria munição para adversários de Lula e atrairia críticas na imprensa. O principal medo era uma repercussão negativa nas redes sociais, terreno onde o bolsonarismo, principal força política adversária do presidente, é forte.
Janja vinha demonstrando a pessoas próximas empolgação com a perspectiva de participar da apresentação da escola. Ministros foram proibidos de desfilar, mas a avaliação jurídica do Planalto era de que não haveria problema na presença da primeira-dama, uma vez que ela não tem um cargo formal no governo.
A maioria dos aliados e amigos de Lula que acompanharam o presidente no camarote da prefeitura do Rio de Janeiro chegou ao local ainda sem saber que a primeira-dama não desfilaria.
Opositores acusaram Lula, o PT e a escola de samba Acadêmicos de Niterói, responsável pelo desfile, de propaganda eleitoral antecipada. O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) rejeitou as acusações na quinta-feira (12), mas não descartou análise posterior de possíveis ilícitos.
Como mostrou a Folha de S.Paulo, especialistas em direito eleitoral avaliam que o desfile abriu brecha para ações na Justiça Eleitoral. Parte deles, porém, considerou a apresentação contida, o que reduziria o dano potencial de ações.
Advogados próximos de Lula avaliam, por outro lado, que não há um impedimento legal a um desfile como o da Acadêmicos de Niterói. Se houvesse, segundo esse raciocínio, o TSE teria proibido a apresentação.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato a presidente da República, disse que irá ao TSE contra os "crimes do PT na Sapucaí". O partido Novo declarou que pedirá a inelegibilidade de Lula por causa do desfile. A medida seria tomada quando do registro da candidatura, que tem prazo até 15 de agosto para ser feito.
Em nota, a primeira-dama disse que não desfilou para evitar perseguições a Lula e à escola de samba Acadêmicos de Niterói, que promoveu a apresentação. O enredo era "Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil".
Aliados de Lula ouvidos pela reportagem afirmam ver como positivo o saldo do desfile. Parte do entorno do presidente da República receava que houvesse vaias contra a escola ou contra Lula, e não foram percebidas manifestações significativas do tipo vindas da plateia.
Os petistas ouvidos pela reportagem, porém, reconhecem que dificilmente a escola de samba que homenageou Lula estará bem colocada na disputa no Rio de Janeiro. A Acadêmicos de Niterói foi promovida ao Grupo Especial no ano passado.
Apesar disso, o chefe do governo circulou e conversou rapidamente com diversas pessoas presentes e chegou a descer com Paes até o local dos desfiles.
As conversas mais longas de Lula foram com o prefeito, que concorrerá a governador em outubro.
Também estiveram no camarote deputados e outros políticos convidados por Lula e, principalmente, por Eduardo Paes. Houve ainda convidados de fora da política, como um grupo de sindicalistas de São Paulo.
Foi a primeira vez desde o governo Getúlio Vargas que uma grande escola de samba do Rio desfilou homenageando um presidente da República em exercício. O episódio remonta a década de 1950, quando agremiações como Vila Isabel e Portela cantaram a volta de Vargas ao poder.
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