A Polícia Civil investiga a denúncia de abuso sexual de uma paciente durante uma internação na UTI do Hospital Luz Vila Mariana, na zona sul de São Paulo. Segundo o relato de Stefany Correa Próspero, 29, à reportagem ela havia acabado de sair de um coma induzido, estava com as mãos contidas e ainda tinha dificuldade para falar quando diz ter sido violentada por um técnico de enfermagem.
O caso data de 9 de julho e foi registrado três dias depois como estupro de vulnerável. O hospital diz que não compactua com qualquer forma de violência contra a mulher e que tem total interesse na completa elucidação do caso. A reportagem optou por não divulgar o nome do técnico para não prejudicar as investigações em andamento.
O Código Penal enquadra como estupro de vulnerável a prática de ato sexual com menores de 14 anos, pessoas com deficiência intelectual ou que, por qualquer outra causa, não possam oferecer resistência.
A vítima, também técnica de enfermagem, havia sido internada dois dias antes, após passar mal durante o expediente no hospital onde trabalha, em Diadema, na Grande São Paulo. Ela teve forte dor de cabeça, enjoo, queda de pressão, dificuldade para falar, alteração no rosto, perda de força e movimentos involuntários.
"Foi bem rápido. Tive dificuldade na fala, meu rosto ficou um pouquinho mais torto para o lado esquerdo, senti peso nos braços e minha perna esquerda ficou com movimento involuntário", relata à reportagem.
A paciente teve convulsões, foi intubada e transferida ainda no dia 7 para o Hospital da Luz, onde permaneceu em coma induzido por cerca de dois dias.
Na manhã do dia 9, começou a despertar. "Eu acordei bem assustada, porque não sabia onde estava, nem imaginava que tinha ficado esse tempo todo desacordada." Após ser extubada, permaneceu com um tubo menor na boca. Estava consciente, mas tinha dificuldade para falar e mantinha as mãos contidas no leito.
No fim da tarde, segundo o relato, o funcionário se ofereceu para limpar resíduos que haviam ficado no cabelo da paciente. A mãe de Stefany, que a acompanhava, perguntou se poderia sair do quarto para comer. O técnico respondeu que sim e disse que ficaria cuidando da paciente.
Sozinha com o funcionário, a vítima virou a cabeça e fechou os olhos enquanto ele mexia em seu cabelo. "Eu nem respondia a ele. Só queria ficar quietinha no meu canto."
"Eu continuei com os olhos fechados, sem entender aquilo que estava acontecendo. Senti muito medo de abrir os olhos."
A vítima diz que o funcionário também mexeu em seu avental e colocou a mão sobre a abertura da fralda. A ação teria sido interrompida quando a mãe retornou ao quarto.
Ainda com dificuldade para falar, ela pediu um caderno e escreveu para a mãe: "Ele é ruim". Questionada se o técnico havia feito algo, respondeu que sim com um gesto e começou a chorar.
O funcionário voltou ao quarto enquanto ela tentava explicar o ocorrido. A vítima relata que ele passou a utilizar um aparelho para aspirar a saliva de sua boca. "Eu estava querendo falar e ele não deixava. Minha mãe estava nervosa, querendo saber o que estava acontecendo, e ele aspirando a minha boca."
"Eu contei pausadamente tudo o que aconteceu. Falaram que fariam uma denúncia interna e que eu poderia fazer a minha denúncia."
Apesar do relato feito ainda dentro da UTI, a técnica de enfermagem diz que a polícia não foi chamada e que o funcionário não foi retirado imediatamente do local.
A vítima teve alta no dia seguinte. Em casa, apresentou dores, tremores e novos espasmos e procurou um hospital público, onde recebeu diagnóstico de infecção urinária e recebeu medicação. Desde então, faz acompanhamento neurológico.
Em 12 de julho, procurou uma delegacia próxima de casa e registrou o boletim de ocorrência. Stefany foi levada por uma viatura ao Hospital da Mulher, onde passou pelos procedimentos solicitados pela polícia. A mãe, que a acompanhava no dia do episódio, também deverá prestar depoimento.
Stefany afirma que o Hospital da Luz não voltou a procurá-la desde a alta. "Nunca mais. Não fez nenhum contato comigo."
Por meio de nota, o Hospital Luz Vila Mariana afirmou que abriu uma apuração interna assim que recebeu a denúncia. O procedimento envolve as áreas de Atendimento, Medicina e Compliance e inclui entrevistas, análise do prontuário e verificação de imagens de câmeras de segurança, afirma a instituição. A unidade diz que as informações estão à disposição das autoridades.
A SSP-SP informou que a vítima já foi ouvida e passou por exame de corpo de delito no IML (Instituto Médico Legal). O laudo está em elaboração e será analisado pelo delegado após a conclusão.
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