O Ministério Público (MP), por meio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) de Bauru, apresentou nesta sexta-feira (25) à Justiça denúncia criminal contra seis investigados na Operação Cavalo de Troia, que apura supostas fraudes na estruturação da concessão dos serviços de gestão integrada dos resíduos sólidos urbanos (lixo) de Bauru. O documento, protocolado às 17h, tem 317 páginas e descreve o que os promotores classificam como uma organização criminosa estruturada para interferir no processo de contratação pública.
Foram denunciados Cilene Chabuh Bordezan, Hamilton Liborio Agle, Mário Luiz Silvério, Talita de Andrade Soares Chieregatti, Sara Moura de Jesus e Vitor João de Freitas Costa. De acordo com a acusação, o grupo teria atuado em Bauru pelo menos desde meados de 2024 até setembro de 2026, com divisão de tarefas e participação de agentes públicos e particulares.
A denúncia atribui aos seis, em conjunto, os crimes de organização criminosa, contratação direta ilegal e frustração ou fraude ao caráter competitivo de licitação. Também são descritos episódios específicos de corrupção ativa e passiva envolvendo Cilene, Hamilton, Talita, Sara e Mário.
Segundo o MP, fraude começou antes da licitação
Um dos principais argumentos da denúncia é que o suposto esquema não teria começado com a publicação do edital. O Gaeco sustenta que a estratégia teria sido construída durante a fase de preparação da concessão, quando foram definidos estudos técnicos, critérios de habilitação, modelagem econômico-financeira, critérios de julgamento e outros elementos que posteriormente influenciariam a disputa.
A concessão, segundo o documento, teria valor superior a R$ 5 bilhões ao longo de sua execução. Para o Ministério Público, o tamanho e a duração do empreendimento fizeram com que a fase de modelagem assumisse importância decisiva para o resultado da futura concorrência.
A tese apresentada na denúncia é que o grupo teria buscado não apenas vencer uma futura licitação, mas influenciar previamente a construção das condições em que essa licitação seria realizada. O MP afirma que pessoas ligadas ao grupo passaram a ocupar ou se aproximar de posições estratégicas dentro da administração municipal, enquanto particulares participavam da formulação do projeto.
Quatro núcleos
No núcleo público, o Gaeco coloca Cilene Chabuh Bordezan e Sara Moura de Jesus. A denúncia destaca que ambas tinham vínculos profissionais anteriores com a Estre Ambiental e posteriormente passaram a ocupar cargos na Secretaria Municipal do Meio Ambiente de Bauru, órgão diretamente envolvido na condução do projeto de concessão. O Ministério Público afirma que essa passagem para a estrutura municipal teria permitido ao grupo atuar internamente na condução do projeto.
O terceiro núcleo seria o técnico-consultivo, representado principalmente por Mário Luiz Silvério, vinculado à Fipe. Segundo a denúncia, sua função seria fornecer o respaldo técnico necessário para conferir aparência de independência e legitimidade aos estudos e documentos utilizados na estruturação da concessão.
Fipe é peça central da denúncia
Um dos pontos mais detalhados da acusação é a contratação da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) pela Prefeitura. Segundo o Gaeco, a contratação, formalizada pelo Contrato Administrativo nº 13.758/2025, por meio de dispensa de licitação, teria sido previamente articulada para colocar Mário Luiz Silvério em uma posição estratégica dentro da modelagem da concessão.
A acusação também afirma que documentos posteriormente apresentados como produtos da Fipe teriam sido elaborados por integrantes ligados ao grupo e encaminhados a Mário para posterior envio à Prefeitura sob a identificação da fundação.
Em outro episódio, o MP cita conversas em que Cilene e Mário discutem a apresentação da Fipe para uma audiência pública sobre a concessão. Segundo a denúncia, Cilene teria pedido a retirada de uma imagem de biotúnel porque a tecnologia aparecia em apresentações da Estre e poderia gerar a percepção de direcionamento do projeto.
A acusação afirma que os textos eram ajustados entre os envolvidos antes de serem encaminhados oficialmente à Secretaria de Administração e à divisão de licitações.
Para o Ministério Público, esse comportamento demonstraria que a Fipe, que deveria prestar assessoramento independente à Prefeitura, teria sido utilizada para conferir aparência institucional a documentos previamente elaborados pelo grupo.
Outro capítulo extenso da denúncia é dedicado às cláusulas do edital que, segundo o Gaeco, teriam reduzido a competitividade da concorrência. Um dos pontos destacados é o modelo de julgamento por técnica e preço, com peso de 60% para a proposta técnica e 40% para a proposta comercial.
A acusação sustenta que a pontuação técnica utilizava critérios considerados subjetivos, como clareza, objetividade, coerência e consistência dos planos, sem descritores suficientemente objetivos para diferenciar as notas.
Outro ponto considerado particularmente relevante é a exigência de que a licitante apresentasse licença de operação de aterro sanitário onde seriam destinados os resíduos. Para o Gaeco, essa exigência criaria vantagem para empresas que já dispõem de aterro licenciado na região.
A denúncia destaca que a Estre possui aterro em Piratininga, utilizado para receber resíduos de Bauru, e sustenta que a exigência poderia dificultar a participação de concorrentes que precisassem estabelecer previamente relação com um operador de aterro. O MP relaciona esse aspecto à tese de favorecimento da empresa.
Entre os episódios de corrupção descritos na denúncia está o pagamento que, segundo o Gaeco, teria sido combinado para Mário Luiz Silvério. O documento aponta que Mário teria apresentado uma proposta de R$ 540 mil, a ser paga por Hamilton Agle, para sua participação no projeto. Segundo o Ministério Público, as conversas indicariam que o valor não estaria relacionado a uma prestação técnica independente, mas à utilização da estrutura da Fipe para dar respaldo ao empreendimento.
A denúncia reproduz diálogo em que Cilene questiona o valor que seria destinado a Mário e Hamilton responde que a ela caberiam R$ 270 mil. Em outro trecho, o MP afirma que os envolvidos discutiam a participação de Mário como uma forma de fornecer a “chancela” da Fipe ao projeto.
Pagamentos a Cilene e Sara
A denúncia também apresenta uma série de diálogos que, segundo o Gaeco, indicariam pagamentos e outras vantagens destinadas a agentes públicos. Em relação a Cilene, o Ministério Público afirma ter identificado pagamentos provenientes da Estre Ambiental e cita uma conversa em que ela teria mencionado uma renda mensal de R$ 70 mil, valor que, segundo a própria denúncia, seria muito superior à remuneração líquida recebida no cargo de secretária municipal.
No caso de Sara Moura de Jesus, a acusação aponta, entre outras vantagens, o custeio de aluguel de imóvel. Segundo o MP, mensagens indicariam que Hamilton seria responsável pelo pagamento e que Cilene teria intermediado a entrega dos valores.
Essas informações são apresentadas na denúncia como elementos de prova dos crimes de corrupção passiva e ativa. A existência dos pagamentos e a interpretação dada às conversas, contudo, integram a tese acusatória do Ministério Público e ainda deverão ser submetidas ao contraditório no processo judicial.
Outro capítulo importante trata da produção de documentos que, segundo o Gaeco, teriam sido utilizados para conferir aparência de regularidade ao procedimento.
A denúncia afirma que integrantes do grupo produziram documentos destinados inclusive a responder a questionamentos do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo. Vitor João de Freitas Costa é apontado como responsável por participar da validação jurídica de documentos que, segundo o MP, tinham conteúdo ideologicamente falso.
Concessão de mais de R$ 5 bilhões
A dimensão econômica do projeto é um dos elementos utilizados pelo Gaeco para explicar a estrutura que afirma ter identificado.
O documento afirma que o grupo teria desenvolvido um modelo que poderia ser reproduzido em outros municípios, escolhendo Bauru como projeto inicial.
O que o MP pede à Justiça
Cilene e Talita também são denunciadas por corrupção passiva; Hamilton, por corrupção ativa; Sara, por corrupção passiva; e Mário, por corrupção passiva relacionada à função que exerceria na Fipe.
O MP ainda pede que a denúncia seja recebida, que os acusados sejam citados para apresentar defesa e que o processo prossiga até julgamento. Também requer a fixação de valor mínimo para reparação dos danos ao erário, em caráter solidário entre os denunciados, além da aplicação dos efeitos patrimoniais previstos na legislação penal.
O próprio Ministério Público afirma no documento que a denúncia não esgota todas as condutas reveladas pela investigação. Segundo os promotores, diante da complexidade do caso e do volume de provas, o processo foi delimitado ao núcleo de fatos que, na avaliação do Gaeco, já apresentava elementos suficientes de autoria e materialidade, enquanto outras possíveis infrações poderão ser objeto de procedimentos próprios.
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