A morte da soldado Gisele Alves Santana, 32, motivou uma série de denúncias em que policiais mulheres dizem ter sido alvo de assédios cometidos pelo tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, 56, segundo documentos que integram o inquérito e relatos que teriam chegado ao advogado contratado pela família da vítima.
Marido de Gisele, ele foi preso na semana passada sob acusação de feminicídio e fraude processual, após laudos de perícia apontarem que ele a assassinou. Neto afirma que a mulher cometeu suicídio.
Entre as supostas vítimas está uma cabo da Polícia Militar, cuja identidade está sob sigilo, que relatou ao Ministério Público uma série de constrangimentos morais e sexuais praticados por Neto entre julho e novembro de 2025, período em que ele estava casado com Gisele havia mais de um ano.
Em uma das investidas mais agressivas contra a cabo, Neto teria tentado beijar a policial no local de trabalho dela, a sede da 3ª Companhia do 49º Batalhão da Polícia Militar, na zona norte de São Paulo.
O episódio supostamente foi precedido por situações em que o tenente-coronel usava sua autoridade para se aproximar e ficar sozinho com a vítima, segundo o relato dela aos promotores. Em uma das ocasiões, ele a teria escalado para o acompanhar à Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo) e a forçado a deixar sua câmera corporal na sede da companhia.
"Quando perguntei por que deveria tirar minha câmera pessoal, ele apenas disse: eu estou mandando você retirar", disse a cabo no documento, ao qual a reportagem teve acesso. No relato da visita à Alesp, a mulher diz que Neto pediu para que ela o acompanhasse até uma lanchonete e, posteriormente, a um café. A cabo disse que negou o pedido e afirmou que estava de jejum, o que teria irritado o coronel.
O comportamento motivou a cabo a pedir a transferência do seu turno para a noite, segundo o depoimento. A mudança não teria impedido Neto de a procurar no período noturno.
Neste trecho, a cabo afirma ter chegado ao seu limite e passado a desabafar com pessoas próximas. Um pedido de ajuda teria sido feito a um oficial da Polícia Militar, cujo nome e patente ela não revelou por temer ser prejudicada. "Esse oficial pediu que eu formalizasse minhas denúncias 'nos órgãos competentes', mas eu nunca formalizei com medo de ser repreendida".
Casada, a cabo ainda conta ter avisado a Neto que tinha uma boa relação matrimonial e que nos horários de folga ela preferia ficar com o marido dela. Comentário que, segundo ela, resultou em uma resposta irônica e "risadinha de canto de boca" do coronel. A policial diz ter contado o ocorrido para um colega de viatura.
Diante da resistência às tentativas de contato íntimo, Neto a transferiu para uma unidade a cerca de 20 km da residência dela, ainda segundo o relato.
Advogado contratado pela família de Gisele, José Miguel da Silva Júnior disse à Folha que foi procurado por diversos policiais que afirmaram terem sido vítimas de Neto.
"Recebi pelo menos dez relatos de pessoas que têm medo de trazer isso a público", diz o advogado sobre casos que até o momento não fazem parte do inquérito. "Assédio sexual, assédio moral, perseguição. Tudo o que vocês possam imaginar, esse homem fazia."
Em 2022, o oficial foi alvo de uma sindicância da PM por denúncias de assédio moral contra mulheres que integravam a tropa do 29º Batalhão, na zona leste da capital.
Quatro subordinadas dele foram transferidas a outras unidades da corporação sem justificativa legal. Segundo a sindicância, a decisão foi tomada após chegarem aos ouvidos de Neto relatos de que as policiais conversavam sobre sua relação com Gisele.
Após as transferências, uma sargento que seguiu como sua subordinada entrou com uma ação de indenização por danos morais, relatando que Neto seguia a perseguindo e hostilizando. A Justiça reconheceu o assédio moral e determinou indenização de R$ 5.000.
"Nenhuma hierarquia ou cargo está acima da dignidade", disse a advogada Jaqueline Volf, que representa a sargento.
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