O Keytruda, medicamento de imunoterapia usado no tratamento de diferentes tipos de câncer, foi um dos produtos falsificados identificados pela Operação Laziosi.
Deflagrada nesta quinta-feira (5) pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) do Ministério Público do Estado de São Paulo em conjunto com a Polícia Civil, a ação investiga uma rede suspeita de comercializar medicamentos oncológicos falsificados e lavar dinheiro.
A suspeita começou no Hospital IGESP, em São Paulo, que procurou a MSD (Merck Sharp & Dohme), fabricante do remédio, para verificar a autenticidade de uma unidade comprada da distribuidora Nacionalfarma em maio de 2024.
O número de lote impresso na caixa era A101547, válido para o produto original, mas o rótulo do frasco apresentava uma sequência diferente, A1D1547. A data de validade também era inválida, com um algarismo a mais no ano: 22024.
O frasco falsificado não tinha a tampa plástica presente no autêntico e apresentava formato diferente. A caixa era mais estreita e alta, tinha textura distinta e trazia um erro de impressão na indicação de uso adulto e pediátrico.
A bula também era diferente: em vez de dobrada, como no original, vinha em formato de livreto. Além disso, a área da embalagem que deveria revelar informações após ser raspada com um objeto metálico não apresentava nenhum dado.
A MSD lamenta o ocorrido, afirma que o uso de medicamentos falsificados coloca em risco a vida dos pacientes e diz que segue colaborando com as autoridades nas investigações e na adoção das medidas necessárias.
A reportagem procurou o IGESP por telefone e email para saber se os medicamentos suspeitos foram administrados a pacientes e quais providências foram tomadas após a identificação da falsificação.
Não houve retorno de nenhuma das duas instituições até a publicação deste texto.
A unidade analisada pela MSD também foi examinada posteriormente pela Polícia Científica de São Paulo. Os peritos avaliaram ainda um segundo frasco, recebido do Hospital Monte Sinai, em Juiz de Fora (MG) e também adquirido da Nacionalfarma.
A investigação também identificou 39 notas fiscais de venda de Keytruda emitidas pela Nacionalfarma entre janeiro e novembro de 2024. As operações somaram R$ 1,5 milhão e tiveram destinatários em sete estados.
Segundo a Polícia Civil, mais de 90% dos medicamentos vendidos pela empresa não tinham registro de compra correspondente nos documentos fiscais e nos controles de estoque analisados.
Como funciona o Keytruda
O pembrolizumabe bloqueia uma proteína chamada PD-1, presente nas células de defesa do organismo. Alguns tumores usam esse mecanismo para reduzir a resposta imunológica e escapar do ataque dessas células.
Ao bloquear essa interação, o medicamento ajuda o sistema imunológico a reconhecer e combater o câncer.
O remédio tem indicação para diferentes tipos de tumor, entre eles alguns casos de câncer de pulmão, mama, pele e colo do útero.
Na rede pública, o pembrolizumabe foi incorporado ao SUS (Sistema Único de Saúde) para o tratamento de pacientes com melanoma avançado não ressecável ou metastático. O acesso, portanto, não abrange automaticamente todos os tipos de câncer para os quais o medicamento tem indicação.
Em março de 2026, o Ministério da Saúde anunciou uma parceria com a MSD e o Instituto Butantan para transferência de tecnologia e produção do medicamento no país. O processo deve ocorrer gradualmente, ao longo de até dez anos.
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