Os jovens de 16 a 24 anos são os que mais fumam cigarros comuns e eletrônicos no Brasil, segundo uma pesquisa do A.C. Camargo Cancer Center.
O grupo etário, que está inserido na geração Z (nascidos entre 1997 e 2012), tem 19% de sua população formada por fumantes ativos, superando a média total do levantamento (17%) e os mais velhos. Entre pessoas de 25 a 40 anos e de 41 a 59 anos, as taxas são de 15% e 17%, respectivamente.
A pesquisa do A.C. Camargo entrevistou 2.015 pessoas em todo o país, entre os dias 25 e 30 de junho, e foi realizada pela empresa Nexus. A confiabilidade é de 95%, com margem de erro de dois pontos percentuais.
Na prática, manter um percentual elevado de fumantes mais jovens é um indicativo de que essas pessoas podem ser mais custosas à saúde pública no futuro, com mais casos de cânceres e doenças crônicas e respiratórias.
Mundo afora, países buscam alternativas para reduzir grandes contingentes de fumantes. O principal exemplo é o Reino Unido, que em abril aprovou uma lei proibindo a venda de cigarros para os nascidos a partir de 2009.
Por aqui, o Ministério da Saúde afirma que trabalha na prevenção do tabagismo entre o público jovem por meio do Programa Saúde na Escola. A pasta avalia os números como preocupantes, uma vez que o percentual demonstrado na pesquisa do A.C. Camargo reflete resultados encontrados nas pesquisas Vigitel, do próprio órgão, e PeNSE (Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar), do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
A PeNSE mostrou uma queda na quantidade de adolescentes de 13 a 17 anos que experimentaram cigarro, de 22,6% em 2019 para 18,5% em 2024. Apontou, porém, disparo do contato com cigarros eletrônicos, conhecidos como vapes e pods. A experimentação saltou de 16,8% para 29,6%.
A pesquisa Vigitel mostrou, também em 2024, um aumento de pouco mais de 2% na população adulta de fumantes no Brasil. Embora pequena, foi a primeira elevação em mais de 20 anos. O estudo inclui pessoas a partir de 18 anos, contemplando grande parte da geração Z.
O oncologista Helano Freitas, líder do Centro de Referência de Tumores de Pulmão e Tórax do A.C. Camargo, avalia que, diferentemente do que ocorria nos anos 1980 e 1990, os jovens de agora estão sujeitos a influências veladas na internet e à falsa sensação de que o cigarro eletrônico é menos prejudicial.
"As redes sociais funcionam com a lógica algorítmica. Nós, adultos, sabemos cada vez menos o que é entregue aos jovens. [É] diferente do passado, quando todo mundo consumia o mesmo conteúdo na TV e no rádio, e isso permitia coibir conteúdos indevidos", afirma.
O levantamento do A.C. Camargo revela outros alertas importantes para a saúde brasileira. A prevalência de fumantes é maior entre os homens. Eles marcam 21%, ante 13% de mulheres. No recorte etário, 16% dos que fumam têm 60 anos ou mais, percentual maior que o de pessoas com 25 a 40 anos.
O hábito diminui à medida que a pessoa avança nos graus de educação: 21% têm apenas ensino fundamental; 16%, médio, e 12%, superior.
A pesquisa indica que os jovens, ao se iniciarem no tabagismo, alongam o hábito por uma falsa percepção de que são saudáveis e, portanto, terão tempo de se recuperar.
Os entrevistados também foram questionados sobre se acumulam outros hábitos prejudiciais à saúde. Entre os que se declaram fumantes, 84% responderam praticar até quatro outras condutas nocivas, como sedentarismo e consumo de ultraprocessados. Entre os não fumantes, 18% afirmaram o mesmo.
O pneumologista João Carlos Jesus, especialista em doenças respiratórias e cessação do tabagismo do Hospital Vera Cruz, afirma que a introdução ao fumo na juventude eleva a dificuldade de interromper o hábito no futuro, sobretudo entre adolescentes.
"É comum os jovens procurarem substâncias psicoativas que promovam a sensação de prazer, como a nicotina. Mas esta substância em um cérebro em desenvolvimento vai criar uma dependência difícil de eliminar depois, porque poucas coisas serão tão estimulantes quanto ela", afirma.
"Nós não temos mecanismos para tratar a dependência causada por 100, 150 cigarros ao dia. A reposição de nicotina, uma das principais ferramentas de cessação ao tabagismo, se limita a 20 cigarros diários. O mais provável é que esse jovem mantenha o hábito ao longo de toda a vida adulta", explica.
Para driblar o problema, o pneumologista aposta em uma comunicação massiva sobre os riscos dos cigarros eletrônicos e na substituição do prazer promovido pela nicotina pelo de hábitos saudáveis.
O Ministério da Saúde desenvolveu o Guia de Bolso de Prevenção ao Uso de Tabaco, com atividades pedagógicas a partir do ensino infantil. O material pode ser consultado aqui.
A pasta diz ainda que, segundo o Inca (Instituto Nacional de Câncer), fatores como o baixo preço dos produtos de tabaco, a promoção indevida na internet e a manutenção de aditivos que tornam o sabor e o cheiro dos produtos mais atrativos contribuem para o interesse dos jovens pelos fumígenos.
Dados do Inca apontam que os gastos com tratamentos de doenças ligadas ao tabaco superam em mais de dez vezes o valor arrecadado com impostos sobre esses produtos.
O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde.
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