Slogans com referências anais. Fantasias e perucas. Gracinhas e piadas no horário eleitoral. Não é de hoje que os candidatos tentam angariar votos por meio do riso e da excentricidade. Nas eleições de 2026, não é diferente.
Alguns começam fazendo graça já com a própria alcunha que vai para a urna eletrônica. Taxista Samurai (PDT-PE), Plínio Trump (Novo-MG), Gugu Liberato (Avante-SE), Tadala (Agir-RJ). Há ainda aqueles que colocam um aposto no nome eleitoral: Dr. Célio, o Lula do Bem (PL-SP) e Silva Fotógrafo, o Corno (Agir-DF).
"Cansado de tomar no botão? Vote no Macarrão", recomenda o candidato do PT de São Paulo na sua propaganda eleitoral para deputado federal.
"Vai votar no Du!", grita o comediante Yuri Caetano, caracterizado como a personagem Zuleide, criação dele próprio, ao lado de Venturini. À Folha, a equipe do candidato nega que seja um trocadilho. Diz que é apenas "uma expressão utilizada pelo candidato e apoiadores".
"Essa foi uma pergunta que fiquei me fazendo durante muito tempo. Assisti ao documentário do Enéas, vi outros vídeos, pensei em várias possibilidades... Mas foi quando conheci o Yuri que tudo começou a fazer sentido", escreveu Venturini em post nas redes sociais sobre o comediante, que tem 1,1 milhão de seguidores no Instagram.
A referência a Enéas Carneiro não é por acaso. Morto em 2007, o político ganhou fama com suas excêntricas propagandas eleitorais nos anos 1990 e 2000. Mesmo com o breve tempo que costumava ter nas inserções na TV, o impacto visual e sonoro reverberava naquele mundo ainda analógico. Porém, apesar de ter recebido mais votos do que Leonel Brizola e Orestes Quércia em 1994, ele ainda era tratado como piada por muitos.
Numa época em que não havia palavras como "meme" ou "viralizar", o bordão "meu nome é Enéas 56" era tão famoso quanto aqueles repetidos na "Praça é Nossa". A barba negra, os óculos fundo de garrafa, a voz ora gutural, ora estridente eram quase um patrimônio imaterial brasileiro.
Só que, com o tempo, aquilo que era motivo de riso virou motivo de voto. No início do novo milênio, o New York Times escreveu que o candidato, considerado "nanico e excêntrico" e que sempre foi motivo de piadas, "riu por último em 2002".
Em 2006, o costureiro Clodovil Hernandes foi o terceiro deputado federal mais votado do país. Nas suas propagandas eleitorais, eram comuns trocadilhos com a sua sexualidade. O seu número na urna eletrônica era 3611, e ele concorria pelo PTC. "Por que eu escolhi o 11? Meu amor, porque o 24 já era. Agora é '1' atrás do outro", explicava, para, em seguida, soltar sua característica risada.
"Vocês não pensem que eu sou passivo, não. Pisa no meu pé para ver o que acontece", dizia em outra versão.
Mas o humor esdrúxulo não é um simples tempero brasileiro nas eleições. Tem a ver com os tempos em que vivemos. Com a massificação das redes sociais e da rolagem infinita, há uma disputa acirrada pela atenção das pessoas, como nunca antes houve.
Para Anna Bentes, professora da Escola de Comunicação da FGV (Fundação Getulio Vargas), o conceito de economia da atenção é importante para entender as dinâmicas comunicacionais das eleições atuais.
Ao menos duas pessoas que fazem associações ao presidente Lula disputam as eleições, sendo um pelo PT e o outro pelo PL. O comerciante Daniel Vieira da Silva (PT) concorre a deputado estadual em Alagoas com o nome de urna "Lula de Alagoas". Ele chegou a anunciar que desistiria da candidatura por falta de repasses do fundo eleitoral, mas mudou de ideia após receber R$ 39 mil do partido para a campanha.
Em São Paulo, o médico Célio Morais (PL) é candidato a deputado federal. Ele adotou como nome de urna "Dr. Célio, o Lula do Bem", o que motivou um pedido de impugnação da candidatura -a Procuradoria Eleitoral alegou que o nome poderia gerar uma falsa associação com o presidente. Sua candidatura recebeu R$ 600 mil do Diretório Nacional do PL.
Em Minas Gerais, se destaca uma tentativa de ligação com o presidente americano Donald Trump. Plínio Vicentin Junior, 59, concorre com o nome Plínio Trump. O candidato a deputado federal pelo partido Novo é de Varginha (MG) e tem, segundo seu site de campanha, três décadas de carreira como piloto de helicóptero. A arte de sua candidatura destaca uma montagem com a bandeira do Brasil, a Estátua da Liberdade, em Nova York, e o Capitólio dos EUA, localizado em Washington.
Em Pernambuco, o candidato Sargento Bigode tenta uma vaga como deputado estadual pelo Missão. Ele ganhou notoriedade após ser punido pela PM em janeiro deste ano por utilizar um bigode ultrapassando a linha do lábio inferior, em desacordo com o estabelecido pela corporação.
Segundo Emerson Cervi, professor titular do Departamento de Ciência Política da UFPR (Universidade Federal do Paraná), essas candidaturas podem atrair o voto de protesto.
Esse tipo de voto é definido por ele como "destinado a uma crítica ao sistema, não necessariamente de apoio a um candidato ou partido".
Colaboraram Gabriel Araújo, de Belo Horizonte, e Jorge Cosme, de Recife
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