O avanço de investigações sobre o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, aprofundou a tensão entre a Polícia Federal e o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) André Mendonça. A relação entre os investigadores e o responsável pelos inquéritos na corte chegou ao ponto mais agudo de desconfiança.
Nas últimas semanas, Mendonça fez cobranças à PF por entender que as investigações andavam em ritmo mais lento do que deveriam, enquanto a cúpula da polícia propôs uma ação para desfazer medidas de controle impostas pelo ministro.
O embate transbordou e alcançou outros órgãos do governo, principalmente depois que o filho do presidente Lula (PT) entrou na mira. Entre esses integrantes da gestão petista, há uma preocupação de que a disputa possa contaminar as investigações, tirando o foco do trabalho dos agentes e criando o risco de que o caso saia do controle.
Assim, o indiciamento ou não de Lulinha seria visto como a vitória ou derrota de um grupo, mais que a consequência de um trabalho técnico. Embora a própria PF tenha pedido a abertura de inquérito, Mendonça se encarregou do caso após sorteio.
A avaliação no governo é que a tensão entre os dois lados é inoportuna, uma vez que casos de grande repercussão são complexos e que é natural um andamento em ritmos particulares. Isso dependeria da quantidade de envolvidos, volume de elementos, forma de coleta de provas, sofisticação do esquema investigado, local das infrações e conexões identificadas.
Mendonça vinha questionando a demora do envio do material das investigações sobre as fraudes no INSS, que deram origem aos novos inquéritos contra Lulinha, além de cobrar informações sobre as mudanças feitas na equipe de investigação e sobre a falta de comunicação dessas alterações.
O filho de Lula teve quebras de sigilos bancário, fiscal e telemático autorizadas pelo ministro em fevereiro. Na última quinta-feira (30), ele se tornou alvo de um inquérito sob suspeita de tráfico de influência em atuação por comércio de canabidiol.
Nesse caso, as autoridades apresentaram o pedido de forma autônoma ao Supremo, e não dentro do caso do INSS. A opção foi vista por assessores do STF como uma tentativa de driblar a relatoria de Mendonça e reduzir a concentração de poder em seu gabinete.
Mendonça também autorizou a abertura de outro inquérito sobre Lulinha, por suspeitas de atuação a favor de um empresário em negociações com a Dataprev (Empresa de Tecnologia e Informações da Previdência).
Segundo pessoas com acesso ao gabinete de Mendonça, a demora, até então, na análise do material sobre Lulinha causou estranhamento. Em comparação, as apurações das fraudes do Banco Master, cuja primeira fase deflagrada foi em 18 de novembro, estariam caminhando de forma mais acelerada. A Sem Desconto, sobre o caso do INSS, foi iniciada em 23 de abril de 2025.
Mendonça também determinou que qualquer afastamento de policiais da equipe de investigadores fosse comunicado previamente a ele e que a remessa de todos os dados apreendidos seja feita ao gabinete no meio das apurações, não ao final do trabalho.
Desde o surgimento do nome de Lulinha no caso INSS, três delegados do caso foram trocados. Em alguns momentos, o relator soube da mudança por meio de advogados de envolvidos.
A ida da PF à AGU representou um passo da escalada da crise entre Mendonça e a polícia. Devido à insatisfação do relator com o que vê como lentidão das investigações sobre o caso, o ministro havia determinado anteriormente que a PF concluísse, em até 60 dias, a análise do material apreendido na operação, como celulares, HDs, e pen drives dos presos.
Em resposta, a PF informou ao ministro que precisaria de mais prazo e falou em falta de pessoal. A polícia disse que há 11 pessoas atuando na investigação, enquanto seriam necessárias mais de 40 para cumprir o prazo desejado pelo ministro. Também afirmou que a análise global do material, de cerca de 1.700 itens, encontra-se em estágio inicial e que teria finalizado cerca de 40%.
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