A infiltração de membros do PCC (Primeiro Comando da Capital) no sistema de transporte de ônibus de São Paulo é uma história de três décadas que remonta à consolidação do grupo criminoso no estado.
Esse processo também passou pela regularização do transporte coletivo em bairros periféricos da cidade e pela ascensão política de figuras ligadas ao setor.
Uma delas é o ex-vereador Milton Leite (União Brasil), alvo de uma operação do Ministério Público e da Polícia Civil nesta quinta-feira (17). Ele se entregou à polícia na tarde desta sexta-feira (18), em Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo.
A Operação Vectura Corrupta afirmou que a facção controla 12 empresas de ônibus da Grande São Paulo em um esquema de lavagem de dinheiro. Uma das companhias investigadas é a Transwolff, que atua na zona sul da cidade. A empresa nega irregularidades.
A investigação concluiu que o ex-presidente da Câmara Municipal é o "dono de fato" da Transwolff. O ex-vereador, segundo as investigações, seria responsável direto por sua operação.
Em conversa por telefone com a Folha na manhã de quinta (17), Milton negou qualquer relação com a Transwolff e com a facção criminosa.
"Nego veementemente, não conheço ninguém do PCC nessa vida. A minha relação com o setor foi institucional, a pedido do então prefeito Bruno Covas, inclusive na negociação de uma greve em 2019. Não há nenhuma hipótese de eu ser dono [da Transwolff]. Nunca tive um carro", disse.
A trajetória da Transwolff é parecida com a de outras empresas de ônibus apontadas como parte do esquema.
"Houve uma grande crise de transporte naquela década. O setor clandestino ganhou muita força, gerando interesse dos membros da facção que estava crescendo", explica o promotor Lincoln Gakiya, do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado de São Paulo) do Ministério Público de São Paulo.
Nesse período, também ocorria a consolidação do PCC como grupo criminoso hegemônico no Estado --a facção foi criada em 1993.
"Membros da facção passaram a comprar vans. Depois, quando surgiram as cooperativas, eles compraram muitas cotas e acabaram tomando o controle de algumas dessas entidades", diz Gakiya.
Uma das cooperativas investigadas no período foi a Cooperpam (Cooperativa dos Trabalhadores Autônomos em Transporte de São Paulo), com atuação na zona sul da capital. Anos depois, ela se transformou em uma empresa e mudou de nome para Transwolff.
Na época, ele foi preso sob suspeita de utilizar dinheiro da cooperativa em um plano de resgate de presos. A Justiça concluiu não haver provas. O inquérito foi arquivado.
Em 2024, Pandora foi investigado na operação Fim da Linha. Ele e outros diretores da Transwolff foram acusados de fraudar a contabilidade da empresa para incluir recursos provenientes do tráfico de drogas. O órgão também apontou que a facção teria feito um aporte de capital de R$ 50 milhões na empresa.
Em nota à Folha, a defesa da Transwolff e de Luiz Carlos Pacheco negou irregularidades e qualquer ligação com o ex-vereador Milton Leite.
"Ele [Milton] nunca teve qualquer participação societária na Transwolff, nunca participou da gestão ou deu ordens na empresa. Tal afirmação está completamente equivocada e dissociada da realidade", disse a empresa.
Outro alvo da operação desta semana é o empresário Paulo Korek Farias. Nos anos 2000, ele atuava numa garagem associada à Cooperpam.
Hoje, ele é dono da A2 Transportes. Segundo as investigações, a empresa também faz parte do esquema de lavagem de dinheiro para o PCC. A polícia cita também áudios nos quais representantes da companhia combinam pagamentos ilícitos.
Outro nome da política paulistana ligado ao setor de transportes também foi preso sob suspeita de ligações com o PCC este ano. Em junho e agosto, o vereador Senival Moura (PT) ficou 43 dias preso na Operação Última Parada, que também investigou o setor.
Mensagens obtidas pela polícia em celulares mostraram o suposto papel de Senival na distribuição de recursos da Transunião --empresa suspeita de operar um esquema de lavagem de dinheiro.
Desde os anos 1990, Senival é ligado ao setor de transportes. Na época, era um dos operadores de kombis clandestinas que circulavam na zona leste.
Quando foi solto pela Justiça, em 6 de agosto, a defesa de Senival negou irregularidades.
"Esse é um serviço altamente lucrativo para o crime organizado, porque é uma possibilidade única de lavar dinheiro. A facção consegue misturar o que é pago pela prefeitura, a renda gerada pelos passageiros e o dinheiro oriundo do tráfico de drogas", diz.
No ano passado, a prefeitura repassou R$ 7,1 bilhões subsídios às empresas de ônibus.
"Quando a facção controla a circulação de pessoas, ela pode ampliar mercados, regular territórios, interferir na vida cotidiana e acumular uma capacidade de negociação econômica e política", diz.
Em nota, a gestão Ricardo Nunes afirmou que "não compactua com qualquer irregularidade ou práticas ilegais no sistema de transporte público."
Linha do tempo do sistema de ônibus de SP
Anos 1990 - Perueiros atuam no transporte público clandestinamente
2003 - Criação de cooperativas de motoristas com regulamentação das vans clandestinas
2014 - Prefeitura passa a exigir que cooperativas de motoristas se transformem em empresas
4.mar.2020 - Adauto Soares Jorge, presidente da empresa Transunião, é morto na zona leste de São Paulo. Ele era próximo do vereador Senival Moura (PT). Crime teria sido encomendado pela facção
25.jun.2026 - Vereador Senival Moura é preso sob suspeita de comandar empresa com ligação com o PCC
16.set.2026 - Operação Vectura Corrupta prende ex-vereador Milton Leite sob suspeita de comandar a empresa Transwolff.
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