Quando visitava a filha no Recreio dos Bandeirantes, na zona sudoeste do Rio, Paulo Martins, 78, costumava acordar cedo e caminhar sozinho na praia. Ativo, o funcionário público aposentado do Ministério da Saúde administrava as próprias contas, compartilhava fotografias nas redes sociais e, torcedor do Fluminense, gostava de conversar sobre política e futebol.
Dois anos depois de receber um transplante de fígado e ser infectado pelo HIV, ele diz aos familiares que tem medo de transmitir o vírus aos próprios filhos, que hoje se revezam nos cuidados com ele. Em entrevista à reportagem, a filha Marina Martins, 41, afirma que Paulo também relata se sentir punido por algo que não provocou. Segundo ela, o procedimento, que representava a possibilidade de melhorar sua qualidade de vida, foi seguido por meses de sofrimento e perda de autonomia.
O aposentado foi uma das seis vítimas do escândalo de contaminação por HIV em transplantes de órgãos no Rio, em 2024, após exames realizados pelo laboratório PCS Lab Saleme, em Nova Iguaçu. Agora, enfrenta um câncer de boca e voltou a ser internado após complicações de uma cirurgia para retirada do tumor.
Marina conta que o pai era independente antes do transplante. Mesmo depois de desenvolver cirrose e um tumor no fígado, continuava fazendo compras, utilizando o celular e cuidando da antiga casa da família, em São João de Meriti, na Baixada Fluminense.
Em maio de 2024, Paulo recebeu um transplante de fígado. A recuperação inicial transcorreu sem complicações aparentes, mas, nas semanas seguintes, ele passou a apresentar infecções recorrentes, fraqueza muscular e alterações neurológicas.
Feridas na boca e na garganta dificultavam a alimentação. Segundo Marina, o pai, que pesava 75 kg, chegou a aproximadamente 42 kg. Deixou de acompanhar o noticiário e já não conseguia concluir frases. Também precisava de ajuda para atividades básicas como comer, se locomover e tomar banho.
A família procurou diferentes especialistas, sem conseguir identificar a causa da deterioração. Em outubro de 2024, um exame de sangue solicitado pela equipe médica revelou a infecção pelo HIV.
Paulo foi encaminhado à Fiocruz, onde enfrentou uma internação grave, com necessidade de intubação, segundo a filha. Após o início do tratamento antirretroviral e ajustes nas medicações, começou a apresentar melhora gradual.
Os quatro filhos passaram a organizar escalas para acompanhá-lo em consultas, exames e internações. Um deles mora com Paulo, enquanto cuidadoras permanecem no apartamento durante parte do dia. Marina relata que as visitas familiares, antes dedicadas a passeios e momentos de convivência, se transformaram em compromissos de assistência.
O impacto também chegou à vida profissional e à saúde emocional da família. Segundo ela, um dos irmãos enfrentou crises de ansiedade que o levaram a interromper o trabalho. Outro passou a ter dificuldades no emprego devido às ausências para acompanhar o pai em emergências.
A professora associa o quadro ao estresse vivido desde a descoberta da contaminação. Durante a entrevista, mostrou fotografias das mãos com feridas e unhas comprometidas. Hoje, utiliza medicamentos para controlar os sintomas, que voltaram a se intensificar com a recente internação do pai.
A família ainda tentava reorganizar a rotina quando surgiu outro problema de saúde. Uma ferida persistente na boca levou à realização de uma biópsia, que identificou um câncer.
Ele recebeu alta com uma sonda nasogástrica, utilizada para alimentação e administração de medicamentos. Na consulta de revisão, porém, os médicos identificaram uma infecção e a abertura de pontos cirúrgicos. Paulo precisou ser internado novamente. Segundo a filha, ele permanece hospitalizado, com quadro estável e sem previsão de alta.
A família busca esclarecer se o desenvolvimento do câncer tem relação com a infecção pelo HIV e com a condição de imunossupressão do paciente, que utiliza medicamentos para evitar a rejeição do fígado transplantado.
O advogado considera que a declaração sustenta a existência de nexo causal entre as condições de saúde do paciente e o tumor. A defesa afirma que o diagnóstico de carcinoma de células escamosas foi confirmado por exame da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).
Apesar das dificuldades, Marina elogia o acompanhamento oferecido pela Secretaria de Estado da Saúde e pela Fiocruz. Segundo ela, uma equipe de acolhimento auxilia no agendamento de exames, no transporte para consultas e nos encaminhamentos necessários ao tratamento.
Segundo Marina, o pai considerou que a proposta não correspondia à gravidade do que havia enfrentado. Em setembro de 2025, a família ajuizou uma ação indenizatória contra o Estado do Rio de Janeiro, a Fundação Saúde e o laboratório PCS Lab Saleme.
De acordo com o advogado que representa a família, o processo tramita sob segredo de Justiça e está na fase de produção de provas. Ainda será realizada uma perícia para avaliar a extensão dos danos sofridos e os tratamentos necessários. O escritório não informa os valores pedidos na ação.
Segundo a Secretaria de Estado da Saúde, cinco vítimas continuam sendo acompanhadas e uma morreu.
Na esfera criminal, seis sócios e funcionários do laboratório respondem por acusações que incluem associação criminosa, lesão corporal e falsidade ideológica. Todos chegaram a ser presos em 2024, mas respondem em liberdade, sob medidas cautelares.
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