Dia 12 de maio de 2006, sexta-feira.
Toque de recolher, rebeliões em 74 presídios e 564 mortes.
Na véspera do Dia das Mães, a mãe de todos os ataques do crime organizado contra o Estado.
Entre os dias 12 e 20 de maio, São Paulo transforma-se em um campo de guerra. A onda de ataques do crime, seguida de um contra-ataque das forças policiais, deixou o saldo de 564 mortos e 110 feridos.
Um ano depois, em 2007, o PCC reorganizava as peças no tabuleiro do crime e lançava as bases de seu projeto de expansão.
A influência política estava entre as metas da organização, criada em 31 de agosto de 1993, no "Piranhão", o pavilhão anexo da Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté -- definido pelos presos, no estatuto de nascimento da facção, como "fábrica de monstros" e "campo de concentração". O PCC teria candidatos?
Esta era a pauta que eu, repórter investigativo, apurava naquele período. E havia uma pista. A investigação me levou a uma fonte, que disputaria a eleição em 2008, buscando uma vaga no Poder Legislativo, em um município da região, contando com o apoio da organização criminosa. O pré-candidato a vereador topou falar, desde que tivesse a sua identidade e localidade preservadas.
A fonte nos levou até um pequeno escritório nos fundos da loja. Lá, contrariando a posição inicial, o pré-candidato disse que não poderia mais falar sobre a meta da facção apoiar candidaturas. No jargão jornalístico, a pauta caiu.
Enquanto tentava, sem sucesso, convencê-lo a mudar de ideia, frustrado com a mudança repentina da entrevista, vi um livreto sobre a mesa do escritório. A ilustração da capa chamou a minha atenção: mostrava uma família e uma pomba, abaixo do título: 'Cartilha de conscientização, união e família - Para uma Geração Consciente'. "E esse livro, o que é?", questionei.
O 'novo testamento' da facção criminosa
A fonte respondeu que o livreto havia acabado de sair e era uma cartilha do PCC, destinada a seus integrantes e 'simpatizantes', que trazia a doutrina da facção, o seu código de conduta.
Diante do tema, de interesse jornalístico, perguntei se poderia levá-la para tirar uma cópia do livreto. "Não sai dessa sala", respondeu a fonte, que em seguida complementou: "mas pode ler se você quiser".
Não tive dúvida: munido de caneta e bloquinho, por algumas horas, copiei a cartilha à mão, ipsis litteris, da primeira à última página, ao longo de duas ou três horas.
Com as informações em mãos, ouvindo também as forças de segurança, o tema se transformou em uma reportagem especial, manchete da capa do jornal, denunciando o ambicioso projeto de poder do PCC. Uma semana mais tarde, um promotor telefonou e contou que uma cópia da cartilha havia sido apreendida em uma unidade prisional.
O que pregava a cartilha do PCC?
Entre outros pontos, a cartilha pregava a expansão do PCC para todo o Brasil, o monitoramento de autoridades a meta e o objetivo de que a massa carcerária tivesse direito a voto, entre outros pontos sensíveis, como a lista "daqueles que prejudicam a organização".
Ainda hoje, a versão atualizada da cartilha é uma peça importante na estrutura do PCC, sendo apresentado pelos líderes aos integrantes e por eles aos familiares.
"O 'sintonia' deve lembrar que cada um deve ler, analisar, e discutir a Cartilha, para que haja uma constante evolução do entendimento e a disseminação aconteça dentro e fora de cada unidade prisional em todos os estados brasileiros e nos países onde a facção esteja presente", diz a cartilha do PCC.
PCC é definido como organização terrorista
O PCC, facção nascida dentro da Casa de Custódia de Taubaté, entrou na mira do governo dos Estados Unidos. Nesta quinta-feira (28), a administração do presidente Donald Trump anunciou a inclusão do PCC e do CV (Comando Vermelho) na lista de organizações terroristas estrangeiras.
O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou que PCC e CV estão entre “as organizações criminosas mais violentas do Brasil” e destacou que as facções possuem atuação internacional.
“Juntas, elas comandam milhares de membros e têm orquestrado ataques brutais contra policiais brasileiros, autoridades públicas e civis”, afirmou Rubio.
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