Candidato que subiu para a terceira posição nas pesquisas de intenção de voto para a Presidência da República, o escritor Augusto Cury (Avante) deixou uma série de negócios na Flórida de fora da declaração de bens que apresentou à Justiça Eleitoral brasileira.
Cury é o presidenciável que declarou o maior patrimônio, R$ 242,3 milhões, mas ao menos três empresas nos Estados Unidos -além de duas no Brasil- ficaram de fora da relação, composta principalmente por dívidas a receber de empresas familiares e participações societárias.
Por meio de sua equipe, o candidato disse que seu patrimônio foi "construído de forma lícita" e que eventuais inconsistências na declaração apresentada serão corrigidas.
As duas empresas informadas à Justiça são a Intelligence School, constituída em 2014, e a Love Story Josefina -renomeada Love Story Investments em 2021-, de 2017. A Cury Academia Comportamental, a Contemplare Investments e a Free Mind Publish, abertas entre 2021 e 2024, são as que estão de fora.
Os registros da Flórida identificam as pessoas autorizadas a agir por cada empresa, mas não informam o percentual de participação de cada uma nem o capital investido. Nas três empresas omitidas, Cury aparece como membro autorizado. Em uma delas, é o único.
A Intelligence School comprou e vendeu ao menos quatro imóveis em Orlando, em transações que somam US$ 13,5 milhões no período de 2014 a 2024, segundo escrituras registradas no cartório do condado de Orange.
No Brasil, Contemplare é o nome de uma empresa de Cury que também não aparece em sua declaração.
Com objeto social de locação de imóveis próprios, aluguel e arrendamento de terras próprias para exploração agrícola e administração de imóveis próprios, a companhia foi registrada em Dumont (SP), em 2022, e transferida para Ribeirão Preto em julho deste ano.
Entre os maiores bens, o candidato declarou possuir R$ 25,8 milhões em BDRs -certificados emitidos no Brasil por instituições depositárias, com lastro em ações de empresas estrangeiras e negociados na B3.
De dezembro de 2020 ao primeiro semestre de 2023, a Arco Educação, empresa que já atuava no ramo de plataformas educacionais, pagou R$ 589,1 milhões à família de Cury pela compra da Escola da Inteligência, empresa fundada pelo escritor e uma de suas filhas, segundo balanços da companhia.
A empresa fornecia material e capacitação de professores para aulas extracurriculares para desenvolver atividades emocionais nos estudantes. Uma pessoa próxima ao escritor descreveu a transação como seu principal negócio até aqui.
Cury informou ainda ao TSE possuir R$ 31,5 milhões como "sócio participante" da Fictor Invest. O mesmo valor aparece em nome dele na relação inicial de credores de uma recuperação judicial do grupo Fictor, repassado por sua equipe à Folha de S.Paulo.
No documento, o crédito é classificado como quirografário (sem garantias) e descrito como decorrente da rescisão de contratos de sociedade em conta de participação. Sua mulher, Suleima Cabrera Farhate Cury, também consta da lista, por R$ 1,3 milhão.
A Fictor pediu recuperação judicial neste ano e esteve envolvida em tentativa de comprar o Banco Master em 2025 antes da liquidação decretada pelo Banco Central.
Em sua lista de patrimônio, o maior bem do escritor é um mútuo (empréstimo a receber) da Filadélfia Nature, empresa da qual detém 99,97% e que tem a mulher e as três filhas como sócias minoritárias. São R$ 121 milhões, segundo a declaração. As informações de registro não apontam data nem condições de pagamento.
Três dessas fazendas -Tamboril e Sobradinho, Pernambuco e Serra Branca, todas em Prata (MG)- foram transferidas por Cury à empresa em ato registrado em janeiro deste ano, pelo valor de R$ 3 milhões.
O candidato declarou 19 itens rurais ao TSE, que somam R$ 6,7 milhões, mas nenhum traz município, área ou número de matrícula -o que é comum entre candidatos- e seis deles repetem nomes: duas Fazenda Serra Branca, duas Fazenda Pernambuco e duas Fazenda Sobradinho.
Um integrante da equipe de Cury afirmou que o grupo do candidato fará uma análise da declaração de bens e considerou que, no caso das propriedades rurais, existia a possibilidade de que fazendas com o mesmo nome sejam constituídas por lotes registrados separadamente, parte deles em nome do escritor e parte em nome de suas empresas.
A informação não veio de forma explícita na nota enviada pela equipe: "O candidato declarou à Justiça Eleitoral bens no valor de R$ 242,2 milhões. São investimentos em múltiplas empresas e em diversos setores, formando patrimônio construído de forma lícita, mediante consulta a notáveis economistas e gestores", diz o texto.
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