Pirajuí Rádio Clube FM

Política

Tarcísio vence na cracolândia com virada sobre Haddad

Tarcísio foi o mais votado em 37 das 57 zonas eleitorais da capital, sendo que 21 delas deixaram de ter a maioria de votos para Haddad

Tarcísio vence na cracolândia com virada sobre Haddad
IMPRIMIR
Use este espaço apenas para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.
enviando

A reeleição de Tarcísio de Freitas (Republicanos) para o governo de São Paulo contou com uma virada sobre Fernando Haddad (PT) na capital paulista. Há quatro anos, o petista havia vencido na cidade pelo placar de 44% a 32% dos votos no primeiro turno e, no segundo, por 54% a 45%. No último domingo (4), no entanto, além de arrebatar o estado em votação única, o governador ganhou no município ao derrotar o rival por 53% a 46%.

Tarcísio foi o mais votado em 37 das 57 zonas eleitorais da capital, sendo que 21 delas deixaram de ter a maioria de votos para o petista e passaram a contar com mais apoiadores do governador. Uma dessas reviravoltas ocorreu na área onde o atual governo fincou uma das suas principais bandeiras: o combate à aglomeração de usuários de drogas conhecida como cracolândia.

As urnas da 3ª zona eleitoral, chamada Santa Ifigênia, atestaram que Tarcísio foi o escolhido por 51% dos moradores da área que abrange quatro distritos centrais: Santa Cecília, Bom Retiro, República e parte da Barra Funda. Haddad teve 48%. Em 2022, o petista tinha vencido o republicano nos dois turnos, sendo 45% a 35%, no primeiro, e 54% a 46%, no segundo.

É justamente por ruas e praças nos limites desses distritos que o fluxo de dependentes químicos se deslocava. O último local a reunir aproximadamente mil usuários de crack foi a rua dos Protestantes, no bairro Santa Ifigênia. Em maio de 2025, porém, o fluxo que vinha minguando desapareceu.

A imagem da via desobstruída foi tratada pelas gestões de Tarcísio de Freitas e do prefeito Ricardo Nunes (MDB) como o fim da cracolândia. A afirmação é controversa. Opositores argumentam que a atuação das forças de segurança no centro resultou no espalhamento de pequenos grupos de usuários pela cidade. Já o governo rebate a crítica dizendo que não há mais um território dominado pelo narcotráfico.

A retirada da cracolândia não é a única ação do atual governo nessa região da cidade. Em um raio de aproximadamente 1 km, a gestão Tarcísio também removeu uma ocupação com mais de 800 famílias. A favela do Moinho era apontada pelo estado como esconderijo de lideranças locais do PCC (Primeiro Comando da Capital). O grupo criminoso é o principal responsável pela distribuição da droga na capital.

No meio do caminho entre o Moinho e a rua dos Protestantes fica o parque Princesa Isabel, no bairro Campos Elíseos. É nessa região que o governo estadual pretende erguer um conjunto de torres para abrigar o seu futuro centro administrativo. O projeto, concedido ao setor privado, terá investimento inicial de aproximadamente R$ 6 bilhões. O consórcio responsável pela construção e gestão durante 30 anos receberá ao longo desse período contraprestações que somam cerca de R$ 25 bilhões.

O projeto é tratado pelo governador como um marco da requalificação urbana de toda a região. A expectativa quanto à recuperação explica o apoio do eleitorado local, segundo Joseph Riachi, presidente da União Santa Ifigênia, associação fundada em 2023 por comerciantes, lojistas e moradores do bairro. "Quando o poder público quer resolver, ele resolve. A região reconheceu o esforço do governo e agradeceu nas urnas", afirma.

A transformação colocada em curso pela atual gestão, porém, enfrenta questionamentos. Proprietários de imóveis que serão demolidos reclamam de estarem sendo forçados a sair do bairro no momento em que o lugar começa a melhorar. Famílias carentes que ocupam casarões em ruínas no entorno também dizem que estão sendo expulsas, enquanto analistas urbanos cobram investimentos em habitação social para equilibrar a oferta de moradia.

Indivíduos que cumpriam pena em liberdade e eram identificados no local recebiam notificações para voltar ao regime fechado. Cerca de 5.000 avisos foram entregues e 160 prisões realizadas inicialmente. Ramuth diz que, apesar do baixo número de detenções, a ação marcou a presença do estado no território.

Quando o fluxo se deslocou para a rua dos Protestantes, sua última parada, câmeras de monitoramento foram instaladas no entorno. Filmagens, incluindo as feitas por drones, passaram a identificar traficantes. Prisões em flagrante foram possíveis porque a Justiça passou a aceitar as imagens como prova. Cerca de 1.700 pessoas foram presas na cena de uso em quase três anos, segundo números do governo.

O governo afirma que quase 30 mil pessoas receberam atendimento e que o número de leitos especializados subiu de 120 para mais de 700, segundo o coordenador da unidade, Quirino Cordeiro.

Na área central da capital, a desarticulação da aglomeração de dependentes químicos deu lugar à dispersão dos usuários. Ao mesmo tempo, o número de pacientes de alta complexidade e sob acompanhamento intensivo subiu de 222 para 447 no primeiro semestre deste ano.

Defensores da estratégia adotada pelo governo dizem, no entanto, que o aumento nos atendimentos ocorre porque usuários com mais dificuldade em encontrar a droga tendem a buscar tratamento.

Clarice Madruga, pesquisadora da Unifesp e coordenadora do Lecuca, o principal levantamento sobre cenas de uso nas capitais, diz que o atual modelo tem seu ponto forte na ampliação e manutenção da oferta de leitos. "É um divisor de águas", diz. "A dependência química oferece poucas janelas de oportunidade para o tratamento, se perdermos hoje, amanhã ela não vai estar lá".

FONTE/CRÉDITOS: Jcnet (Por Clayton Castelani | da Folhapress)
Comentários:

Veja também