Da periferia paulistana ao centro financeiro na avenida Faria Lima, passando pelas bordas do estado e setores da administração pública, a presença pulverizada do PCC (Primeiro Comando da Capital) persiste como um desafio à espera de solução no segundo mandato de Tarcísio de Freitas (Republicanos). O espalhamento de minicracolândias, os roubos de celulares e a alta na violência contra a mulher completam a vidraça da gestão do governador reeleito.
Áreas nas quais o mandato obteve avanços por meio de apostas em parcerias com o setor privado, como o saneamento básico e o transporte sobre trilhos, também reservam expectativas. A avaliação sobre essas agendas dependerá do sucesso da universalização do tratamento de esgoto até 2029, da implantação do trem intercidades entre São Paulo e Campinas e da expansão da rede metroferroviária. O mesmo vale para a requalificação do centro da capital paulista, que inclui a construção da nova sede do governo estadual.
PCC e segurança
A infiltração do crime organizado em múltiplos setores da sociedade é mais que um desafio e assume caráter de ameaça. Investigações apontam indícios de que empresas de fachada operam transporte coletivo, de lavagem dinheiro do narcotráfico nos mercados de combustíveis e imobiliário e de uso de instituições de pagamento como bancos paralelos para a movimentação financeira.
Adorno enfatiza que a corrupção de agentes estatais, em especial policiais e encarregados da repressão, é o que viabiliza as facções. "Sem a corrupção, o crime organizado manifesta dificuldades de se movimentar", diz.
Paralelamente ao avanço nos negócios ilícitos, o cotidiano da população é impactado pela criminalidade de rua e pela violência de gênero. Apenas na capital paulista, os boletins de ocorrência registram uma média diária de 270 furtos e 146 roubos de celulares. Além disso, os feminicídios no estado registraram alta de 20% durante a atual gestão, passando de 142 para 170 casos, enquanto os registros de maus-tratos contra mulheres mais do que dobraram no mesmo período.
O enfrentamento da criminalidade passa por questões estruturais, afirma Rafael Alcadipani, professor de segurança pública da FGV. "É urgente melhorar as condições de trabalho dos policiais em geral e a capacidade de investigação da Polícia Civil, blindando a instituição de ingerências políticas deletérias", destaca.
Na área central da capital, a desarticulação da aglomeração de dependentes químicos na cracolândia deu lugar à dispersão dos usuários em pequenas cenas móveis de uso de drogas espalhadas pela cidade. Ao mesmo tempo, o número de dependentes classificados como de alta complexidade e sob acompanhamento intensivo no centro mais do que dobrou no primeiro semestre de 2026, saltando de 222 para 447 casos.
Evitar que o tráfico de drogas continue promovendo a degradação urbana é uma das bandeiras do governador, cujo sucesso depende também da requalificação da região central da capital.
Analistas urbanos apontam que a intervenção precisa assegurar a oferta de habitação popular e a integração com o entorno para evitar que a obra promova apenas o deslocamento da população mais pobre.
Transporte
No transporte, a implantação do trem intercidades ligando São Paulo a Campinas exige superar entraves como desapropriações e compartilhamento de vias com composições de carga. Ao mesmo tempo, as linhas concedidas de trem e metrô lidam com episódios de falhas operacionais, superlotação e paralisações.
Para custear projetos, a aposta é o dinheiro rápido que vem das concessões ao setor privado. Isso impõe ao estado a obrigação de melhorar a fiscalização, segundo o conselheiro consultivo da ANPTrilhos Joubert Flores. "Com o aumento da participação de capital privado, é fundamental o fortalecimento do papel das agências reguladoras", diz Flores.
Saneamento básico
No saneamento básico está a principal aposta na privatização e também a que gera mais cobranças: a desestatização da Sabesp. A companhia precisa atingir 99% de água tratada e 90% de coleta e tratamento de esgoto até 2029 nos 371 municípios atendidos, com aportes superiores a R$ 70 bilhões.
Entre os gargalos está a necessidade de redes coletoras e de abastecimento em favelas, palafitas e áreas informais de mananciais sem regularização fundiária.
A presidente do Instituto Trata Brasil, Luana Pretto, ressalta a relevância da fiscalização estatal também nesse setor. "O aporte de capital privado só é bom quando tem uma regulação eficiente e é bem monitorado", diz.
Educação
A educação pública de São Paulo também dá sinais de alerta. O estado registra uma taxa de alfabetização de crianças na idade certa de 52% na rede pública, situando-se 14 pontos percentuais abaixo da média nacional de 66% apurada pelo Ministério da Educação.
Para reverter o quadro, o atual governo fixa a meta de alcançar 90% de alfabetizados na idade certa até 2030, além de expandir o ensino técnico para 60% dos estudantes. No entanto, a implementação dessas diretrizes convive com resistências pedagógicas quanto ao uso intensivo de plataformas digitais e com contestação sobre o modelo de escolas cívico-militares.
Em 2015, a rede estadual paulista ocupava o primeiro lugar entre as redes públicas do país. Desde então, a cada edição do Ideb tem tido seu resultado superado por mais estados. Em 2025, ficou na 10ª posição. Em 2023, estava em 8º.
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