A Polícia Federal descreve Márcio Correia de Oliveira, o Márcio Canella, como "patrono político e articulador de alto escalão" de uma organização criminosa que, segundo a investigação, movimentou R$ 7,6 bilhões com uma rede de postos de combustíveis no Rio. Ele foi preso em operação nesta quinta-feira (15).
Na representação ao STF (Supremo Tribunal Federal), os investigadores dizem que ele é o "elo entre o poder público, a rede econômica e as franjas armadas" do grupo. O valor é uma estimativa do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) para o período de 11 de maio de 2020 a 12 de março de 2026 e envolve 835 pessoas e empresas.
A PF afirma que Canella é o "patrono das nomeações do grupo". Segundo a representação, ele "foi o responsável direto por capitanear a indicação" de Marcus Vinicius Amim Fernandes, com prisão decretada, para a presidência do Detran-RJ (Departamento Estadual de Trânsito do Rio de Janeiro) e para a Secretaria de Polícia Civil, "uma vez que articulou manobra legislativa na ALERJ para flexibilizar os requisitos temporais do cargo". Amim tinha dez anos como delegado o que, pela lei orgânica da Polícia Civil da época, inviabilizava a nomeação. A lei foi alterada, e a nomeação foi realizada.
O advogado Thiago Minagé, que atua na defesa de Amim, disse que aguarda acesso à decisão para prestar prestar esclarecimentos.
A expressão "franjas armadas" aparece uma vez no documento, sem definição. A PF diz que o grupo mantém "pontes operacionais com milícias e com o tráfico de drogas" e cita três exemplos. O primeiro é a nomeação de ex-vereadores "sob investigação por liame miliciano" como secretários em Belford Roxo. O segundo é a "íntima vinculação" com Juracy Alves Prudêncio, o Jura, apontado como líder miliciano.
O terceiro é um suposto acordo com o CV (Comando Vermelho). A PF cita áudios em que um capitão da Polícia Militar, depois expulso, aparece negociando com chefes da facção e agindo como "intermediário dos interesses da gestão municipal chefiada" por Canella.
Segundo a representação, os traficantes retiravam barricadas para obras da prefeitura e, em troca, haveria "o recuo deliberado das incursões operacionais do Estado" e a "devolução pacífica do pleno controle territorial" ao tráfico depois das obras.
Manuscritos apreendidos na casa de José Carlos Alves de Souza Júnior, apontado como gestor financeiro do grupo, atribuem a Canella repasses recorrentes de um posto de gasolina: R$ 51 mil, R$ 31 mil e R$ 57 mil, este último sob o codinome "amigo". Em outro trecho, a PF fala em "repasses recorrentes em espécie, sem lastro contratual, superiores a R$ 139 mil" oriundos de outros dois postos. Segundo a representação, um cunhado de Canella está no quadro societário dos estabelecimentos.
A quebra de sigilo bancário mostrou, segundo a PF, que Canella recebeu cerca de R$ 2,59 milhões entre maio de 2025 e abril de 2026, dos quais R$ 1,4 milhão vieram de uma empresa da qual ele é sócio. Os bancos não conseguiram identificar a origem primária do dinheiro. Parte dele foi repassada a familiares e a integrantes do círculo político de Canella, segundo a PF.
Christiano Gaspar Fernandes, também preso, é descrito como policial civil reintegrado depois de demissão por "acusação de vínculo com organização miliciana" e, atualmente, é secretário de Ordem Urbana de Belford Roxo. Fernandes foi preso na operação Guilhotina e absolvida em segunda instância. Expulso, ele foi reintegrado na Polícia Civil e atuou como chefe de investigação de Amim na DRE (Delegacia de Repressão a Entorpecentes).
Moraes fundamentou a prisão em "risco concreto à ordem pública, à instrução criminal e à própria eficácia da persecução penal". O limite de bloqueio, de R$ 700 milhões, vale para todos os investigados. A reportagem busca as defesas dos outros citados.
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