Que os católicos haviam encolhido, e os evangélicos se consolidado como a segunda maior força religiosa do país, somando 26,9% da população com 10 anos ou mais, isso o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) já havia divulgado no ano passado. Mas novos dados traçam um cenário mais específico da religião no Brasil.
Agora, é possível detalhar a filiação religiosa dos brasileiros a partir de microdados do Censo 2022 que o instituto liberou na segunda-feira (31).
Ficamos sabendo que, entre evangélicos, o maior subgrupo é o dos evangélicos "não determinados", que são as pessoas que se autodeclararam genericamente como evangélicas ou crentes, por exemplo, sem apontar uma igreja específica (o que não quer dizer que não a tenham).
Os fiéis de igrejas pentecostais, grupo que na classificação do IBGE engloba das Assembleias de Deus à Igreja Universal do Reino de Deus, são 14,3 milhões (8,1%) dos 176,6 milhões de brasileiros que superavam essa barreira etária em 2022.
Já os chamados evangélicos de missão, que vêm de uma tradição protestante histórica, como os presbiterianos e os metodistas, representam 3,2%, ou 5,6 milhões de pessoas. Ainda no segmento, identificou-se 139 adeptos de "igrejas evangélicas indígenas", o que é estaticamente irrelevante: 0%.
Os números evangélicos exigem uma leitura cuidadosa. Uma mudança de metodologia impediu o IBGE de mapear o grupo a fundo, o que provavelmente mascarou o real tamanho da fatia pentecostal.
O catolicismo continua sendo a crença mais professada no Brasil, ainda que esse grupo venha levando tombos de representatividade a cada novo Censo. Eram 74,4% em 2000, 65,5% em 2010 e, 12 anos depois, foram para 57%, com 100,6 milhões de seguidores.
A análise dos dados permitiu identificar três vertentes católicas. Primeiro vêm os apostólicos romanos, quase 100% do total. A menor fatia é a dos ortodoxos, com 21 mil adeptos espalhados em tradições diferentes, como a russa e a grega.
No primeiro Censo, de 1872, os católicos representavam 99,7% dos quase 10 milhões de habitantes. Não havia brechas para que indígenas e escravizados declarassem outra fé que não a religião oficial do império —só em 1890, com a proclamação da República, o catolicismo perdeu esse status.
Ainda assim, o catolicismo manteve seu monopólio religioso por décadas. A proporção começa a minguar a partir dos anos 1970, tendência que se acelera no século 21.
O todo cristão, portanto, é de 86,9% da população recenseada pelo IBGE.
Os que dizem não ter religião somam um contingente expressivo de 16,4 milhões. São 1 em cada 12 brasileiros se considerarmos também o 1,7 milhão de ateus (1% da população) e os 881 mil agnósticos (0,5%) —aqueles que consideram impossível comprovar se Deus ou forças sobrenaturais existem ou não, mantendo uma postura neutra sobre o assunto.
O restante compõe uma turma heterogênea, que não necessariamente duvida da existência de Deus. Muitos deles só não querem saber de instituições religiosas.
O IBGE separa uma categoria à parte para os 276 mil de brasileiros que se declaram espiritualizados, fora os 167 mil seguidores de tradições esotéricas.
As crenças de matriz africana triplicaram sua presença entre um recenseamento e outro, enquanto os espíritas declinaram. Na conta mais atual, são 3,2 milhões (1,8%). Em 2010, eram 2,2%.
O Censo 2022 registra 197 mil budistas, 100 mil judeus, 41,2 mil muçulmanos e 6,7 mil hindus. Os ayahuasqueiros, que praticam Santo Daime e afins, são 14 mil. Juntando todas essas religiões, dá 0,2% do povo.
Para a cientista política Ana Carolina Evangelista, pesquisadora do Iser (Instituto de Estudos da Religião), os dados recém-liberados mostram como "grandes grupos religiosos escondem diferenças internas importantes".
A subdivisão no campo evangélico merece atenção especial, sobretudo para entender "o quão relevante é a tendência dos evangélicos sem igreja dentro desses números", os chamados desigrejados.
Especialistas esbarram com desafios para escrutinar os dados colhidos pelo IBGE quatro anos atrás. O agrupamento dos evangélicos é uma boa amostra dessa dificuldade.
Em 2010, o IBGE orientava expressamente os entrevistadores a não registrarem termos genéricos como "crente" ou "evangélica". Diante de respostas assim, o recenseador devia fazer perguntas adicionais para identificar a denominação específica do entrevistado.
Pode passar a impressão, para quem não é familiarizado com a realidade das igrejas, de que os pentecostais são menores do que de fato são, quando uma série de pesquisas amostrais realizadas ao longo dos anos indica que eles são a ampla maioria da malha evangélica nacional.
Só que, na hora de responder, o mais provável é que esses fiéis tenham informado algo mais geral sobre a própria fé. Daí a dimensão agigantada dos "evangélicos não determinados". É só comparar com 2010, quando esse grupo era 4,8% do total, enquanto em 2022 mais do que triplicou de tamanho.
"Primeiro foi a pandemia, que adiou tudo que estava planejado para 2020 [previsão inicial para o recenseamento]. Depois foi a falta de dinheiro, negado pelo governo Bolsonaro, e então a realização no mesmo período das eleições presidenciais de 2022, um pleito muito polarizado e que fez com que muitas pessoas não respondessem."
Ele também destaca "o grau de violência e as áreas dominadas pelo tráfico e pelas milícias", que teriam impossibilitado a chegada de recenseadores a alguns domicílios de baixa renda em certas regiões.
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