A criação de um marco legal para a emergência climática foi apontada pela ex-ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, deputada federal e pré-candidata ao Senado Marina Silva (Rede Sustentabilidade) como uma das principais prioridades caso seja eleita senadora por São Paulo.
Acompanhada do ex-presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Rodrigo Agostinho, Marina visitou e concedeu entrevista ao JC/JCNET, e afirmou que o Brasil precisa abandonar a lógica de agir apenas após desastres naturais e passar a adotar políticas preventivas para enfrentar eventos extremos provocados pelas mudanças climáticas. A proposta foi apresentada como parte de uma agenda que une preservação ambiental, desenvolvimento econômico e atração de investimentos sustentáveis.
Segundo Marina, a legislação atual não contempla instrumentos capazes de antecipar ações diante de eventos climáticos extremos. Para ela, o país precisa criar um novo modelo jurídico que permita aos governos agir antes que tragédias aconteçam. "Nós temos o desafio de criar o marco legal da emergência climática. A emergência climática tem que ser decretada antes de o fenômeno acontecer."
Durante a entrevista, no espaço Café com Política, Marina defendeu que a agenda ambiental deixou de ser apenas uma pauta ecológica para se tornar uma estratégia de desenvolvimento econômico. Segundo ela, o combate às mudanças climáticas pode transformar o Brasil, especialmente São Paulo, em um dos principais destinos mundiais para investimentos verdes. "Meio ambiente e desenvolvimento não são inimigos. Economia e ecologia fazem parte da mesma equação. Não existe agricultura sem um clima equilibrado".
A parlamentar afirmou que São Paulo reúne condições únicas para liderar essa transformação por concentrar tecnologia, capacidade financeira, produção científica e uma matriz energética considerada mais limpa que a de muitos países. Ela citou como oportunidades a expansão dos biocombustíveis, da bioeconomia, da economia criativa e circular, da indústria verde e da produção de hidrogênio verde. "O Brasil pode ser protagonista da transição energética. Somos grandes produtores de etanol, temos energia limpa em abundância e podemos atrair investimentos para uma nova indústria sustentável".
Marina também defendeu que a preservação ambiental fortalece o agronegócio brasileiro em vez de prejudicá-lo. Segundo ela, reduzir o desmatamento aumenta a credibilidade internacional do país e amplia o acesso a mercados consumidores. A ex-ministra afirmou que, durante sua gestão, o desmatamento na Amazônia caiu cerca de 50%, enquanto a redução nacional chegou a 32%. Ela relacionou esses resultados à abertura de aproximadamente 500 novos mercados para produtos brasileiros. "O problema nunca foi a qualidade da nossa produção. O obstáculo era a associação do Brasil ao desmatamento. Quando mostramos compromisso ambiental, os mercados se abriram".
Ela ainda rebateu críticas de que a legislação ambiental impediria o crescimento econômico e afastaria investimentos. Para a ex-ministra, o desafio não é flexibilizar as regras, mas oferecer melhores condições para que os órgãos ambientais atuem com mais eficiência. Segundo Marina, investimentos em tecnologia, modernização dos sistemas e contratação de servidores permitiram ao Ibama bater recordes de emissão de licenças ambientais sem reduzir os critérios técnicos de análise. "Ter agilidade não significa perder qualidade. O problema é quando querem retirar justamente os instrumentos que garantem a qualidade do licenciamento".
Rodrigo Agostinho reforçou que a estruturação dos órgãos ambientais foi determinante para aumentar a eficiência do licenciamento ambiental. Segundo ele, a ampliação do quadro de servidores e os investimentos em tecnologia permitiram reduzir prazos sem comprometer o rigor técnico das análises. "A maior parte das licenças hoje não envolve grandes impactos ambientais e pode ser emitida rapidamente, desde que todos os requisitos sejam cumpridos. Com mais servidores, sistemas modernos e melhores condições de trabalho, conseguimos bater recorde na emissão de licenças ambientais", afirmou.
Em tom pessoal, Marina revelou que sua permanência na política é motivada pelo desejo de servir à população. Lembrou a infância marcada pela pobreza, o fato de ter sido alfabetizada apenas aos 16 anos e defendeu políticas voltadas à igualdade de oportunidades, ao combate ao feminicídio e à violência contra as mulheres.

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