O estado de São Paulo registrou, no primeiro trimestre de 2026, o maior número de feminicídios entre todos os trimestres da série histórica, iniciada em 2018. Foram 86 casos entre janeiro e março - 27 em janeiro, 29 em fevereiro e 30 em março -, alta de 41% em relação ao mesmo intervalo de 2025, quando houve 61 registros (22, 20 e 19, respectivamente), segundo dados divulgados nesta quinta-feira (30) pela SSP (Secretaria da Segurança Pública).
Na comparação entre os primeiros trimestres de anos anteriores, o que chegou mais perto foi o de 2024, com 75 casos. O dado consolida uma tendência de crescimento observada ao longo dos últimos anos, com algumas oscilações. Os registros somados de todo o ano passado foram os maiores da série.
A alta nesse indicador contrasta com a queda observada nas estatísticas de homicídios, roubos e furtos no estado, também divulgados nesta quinta.
A ocorrência chegou a ser tratada inicialmente como suicídio, mas elementos da investigação, como depoimentos e laudos de perícia, fizeram o caso passar a ser tratado como feminicídio pela polícia e pelo Ministério Público.
O tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto, 53, com quem a vítima era casada, é apontado como autor do crime e responde na Justiça. Ele está preso preventivamente e nega a acusação.
Para a delegada Monique Ferreira Lima, titular da 6ª Delegacia de Defesa da Mulher, o aumento dos registros exige cautela na interpretação. Os dados não indicam necessariamente que mais mulheres estão sendo mortas, mas, sim, que o estado passou a identificar melhor esses crimes.
Casos que antes eram registrados como homicídios comuns, diz, agora são corretamente classificados como feminicídio, uma tipificação mais recente e que demandou tempo para se consolidar. A lei de feminicídio é de 2015.
A ampliação de canais de denúncia e o fortalecimento da rede de proteção foram adotados pelo estado, segundo ela. Ainda assim, a atuação não é suficiente, reconhece. "A polícia vai continuar prendendo, mas é preciso uma mudança cultural. O feminicídio é resultado de uma estrutura machista e patriarcal", diz.
O enfrentamento à violência doméstica passou a ser tratado como prioridade pela PM. A coronel Glauce Anselmo Cavalli, primeira mulher a assumir o comando da PM em 194 anos de corporação, afirmou durante a posse, nesta quarta-feira (29) que o tema será foco da gestão.
A nova comandante anunciou patrulhas exclusivas para o atendimento de chamadas de violência doméstica, as patrulhas lilases, que devem começar a operar a partir de maio, além da consolidação de cabines destinadas ao atendimento de vítimas mulheres nos centros de operações da PM e ampliação do atendimento via videochamadas.
A maior exposição de casos de violência e o debate público mais amplo sobre o tema têm contribuído para que mais mulheres denunciem agressões, segundo especialistas.
Para Maíra Recchia, presidente da Comissão das Mulheres Advogadas da OAB-SP, o crescimento da violência também está ligado à disseminação de misoginia, especialmente em ambientes digitais. "A gente tem visto a expansão de grupos como red pills e incels. É um conteúdo que incentiva o ódio contra as mulheres e alcança um número muito grande de pessoas", diz.
Recchia também chama atenção para a gravidade dos casos. "Não é só o número de feminicídios que aumenta, mas a crueldade com que eles vêm sendo praticados."
Entre os problemas, Recchia cita a ausência de delegacias da mulher com funcionamento 24 horas em todos os municípios, falhas no monitoramento de agressores e a necessidade de reeducação. "Se o agressor não é reeducado, ele repete esse comportamento em outro núcleo. A gente fica enxugando gelo."
Apesar de o Brasil ter legislação considerada avançada, a advogada avalia que há falhas na aplicação. "A gente tem um sistema jurídico bem estruturado, mas falta política pública efetiva e rede de apoio às mulheres. Não adianta ter lei se ela não funciona na prática."
Queda de homicídios, roubos e furtos
Enquanto os feminicídios avançam, outros indicadores criminais apresentam queda no estado de São Paulo no mesmo período.
Crimes patrimoniais também registraram redução. Os roubos somaram 36.514 casos entre janeiro e março deste ano, ante mais de 45 mil no mesmo período do ano anterior. Os furtos caíram de cerca de 140 mil para 132 mil registros.
A tendência de queda também aparece nos roubos de carga, que atingiram o menor nível da série histórica, com 656 ocorrências no trimestre, redução de 32,4% em relação a 2025.
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