Uma festa de aniversário pelos supostos 12 anos marcou um dos momentos mais simbólicos do golpe atribuído a uma mulher de 37 anos presa em Joinville, no norte de Santa Catarina.
Durante 14 meses, ela convenceu uma família de que era uma adolescente vítima de abusos. Ganhou quarto próprio, presentes e passou a ser tratada como filha, segundo a polícia.
Para o delegado Rodrigo Gusso, responsável pela investigação, o caso revela o "alto poder de convencimento e empatia" da mulher.
O delegado disse que o caso foi descoberto na semana passada. Um parente das vítimas passou a desconfiar da história. Ao fazer buscas por conta própria, encontrou indícios de que a suposta adolescente já havia aplicado um golpe semelhante no Rio de Janeiro. A descoberta foi comunicada à Polícia Civil, que iniciou uma apuração.
Quando os policiais chegaram à residência, encontraram uma situação que demonstrava o grau de envolvimento criado pela mulher. Ela tinha quarto próprio, recebia cuidados da família e era tratada como filha.
"O vínculo emocional era muito forte. A família acreditava realmente que estava acolhendo uma adolescente em situação de vulnerabilidade", afirmou Gusso.
A relação chegou ao ponto de a família organizar uma festa para celebrar o que seriam os 12 anos da jovem. A comemoração ocorreu meses após sua chegada à residência, quando ela já estava integrada à rotina da casa.
"A família tem um bom poder aquisitivo. Ela teve festa para comemorar o aniversário dos 12, pois disse quando chegou que tinha 11 anos", disse o delegado. De acordo com a investigação, a suspeita reforçava diariamente a identidade que havia criado. Brincava de boneca, fazia desenhos infantis, usava chupeta, mamadeira e mantinha objetos associados à infância.
Antes mesmo de passar a morar oficialmente com a família, a mulher já recebia ajuda financeira. Ela solicitava dinheiro e transferências via Pix, que eram encaminhadas para terceiros, afirmou a polícia. O exato valor movimentado ainda está sendo investigado.
Além de moradia e alimentação, ganhou roupas, presentes e outros itens pessoais. "Ela tinha um quarto próprio, decorado. Era tratada como filha pelo casal", disse Gusso.
"Ela dizia que não queria ser adotada porque um suposto pai abusador poderia encontrá-la e levá-la embora. Era uma explicação que sensibilizava a família e fazia com que o assunto não avançasse", afirmou Gusso.
O delegado afirma que a suspeita demonstrava habilidade para criar vínculos emocionais e responder a questionamentos sobre sua história. "Ela possui um alto poder de convencimento e empatia. Conseguia despertar compaixão e sempre tinha uma resposta para as dúvidas que apareciam. A narrativa era muito bem construída", disse.
"A pessoa que a acolheu como filha inicialmente não acreditou no que estava acontecendo. O envolvimento emocional era tão grande que houve resistência em aceitar a realidade", afirmou o delegado.
Já o pai havia tomado conhecimento de suspeitas sobre a verdadeira identidade da suposta adolescente poucos dias antes da prisão. O filho mais velho da família, por sua vez, mantinha uma relação mais distante e não participava diretamente dos cuidados.
Durante o interrogatório, a suspeita relatou que teve uma infância difícil e admitiu que utilizava a falsa identidade para obter ajuda e acolhimento, afirma Gusso. "A confissão chamou atenção porque foi extremamente coerente. Ela apresentou uma linha do tempo dos acontecimentos e explicou como tudo ocorreu", disse o delegado.
A mesma postura foi mantida durante a audiência de custódia realizada após a prisão. "Na audiência ela voltou a informar o nome verdadeiro, confirmou sua origem e demonstrou compreender plenamente os atos praticados. Em nenhum momento observamos dificuldade para entender a situação ou as consequências da própria conduta", afirmou.
Ela permanece presa no Presídio Regional de Joinville. A Polícia Civil continua investigando o montante recebido por meio das transferências financeiras, o envolvimento de terceiros que receberam valores e a existência de outras vítimas.
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