Diego Costa da Silva Araujo, 27, estudante de história espancado por outros alunos no campus de filosofia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), afirma temer voltar ao local onde foi agredido há uma semana, no último dia 25, e diz que teve a trajetória acadêmica interrompida pelo episódio.
O caso colocou a diretoria da universidade sob tensão. Questionada sobre as consequências do episódio, a UFRJ tem respondido que instaurou uma sindicância para apurar o caso e identificar eventuais responsabilidades. Diz ainda que não vai se antecipar sobre possíveis sanções.
Internamente, tenta criar cartilhas para que servidores possam conter eventuais situações semelhantes. O caso também é investigado pela Polícia Civil.
Araujo vestia uma camiseta da banda britânica de pós-punk Death in June, com a estampa de uma caveira similar à Totenkopf, o símbolo usado por tropas nazistas na Segunda Guerra Mundial. Na jaqueta, o estudante exibia um broche antinazista - uma suástica riscada em vermelho na diagonal.
Os alunos que o acusaram interromperam a aula e o abordaram. Araujo diz que tentou explicar que a camiseta representava a subversão dos símbolos autoritários e que o botão junto à jaqueta deixava claro que ele não era nazista. Retirado para fora, como mostram vídeos gravados por alunos, Araujo foi agredido por pelo menos uma dezena de pessoas nas dependências da faculdade e fora do campus.
"Caí numa armadilha", diz Araujo, "porque disseram para mim que havia uma viatura e um policial fora do prédio me esperando, e que me conduziriam à delegacia. Eu colaboro naquele momento porque acredito que não estou cometendo delito. Conseguiria conversar com os responsáveis da lei", conta.
Ele afirma que a professora que ministrava a aula não interrompeu a abordagem e as agressões e não impediu a entrada dos alunos. A reportagem enviou um email à professora com perguntas sobre o episódio, mas não houve resposta.
Araujo diz também que nenhum outro aluno que acompanhava a aula o defendeu. Laudo do exame de corpo de delito no IML (Instituto Médico Legal) aponta que ele sofreu lesões na cabeça, nas coxas e nos joelhos.
"As pessoas estão tratando assuntos acadêmicos e políticos como se fosse um espetáculo. É como se eu não pudesse ler Olavo de Carvalho, por exemplo, ou algum ou outro autor que vai contra as minhas ideias, para conhecê-lo e criticá-lo. Para eles, tenho que escolher um lado, mas não vejo a sociedade dessa forma. A gente não vive no mundo maniqueísta", afirma.
Estaudantes mantém acusações e fazem manifestação
Estudantes da UFRJ identificados com os centros acadêmicos de história e ciências sociais, contudo, não recuaram da acusação de que Diego Araujo fez apologia do nazismo.
Os dois lados —o do estudante agredido e o dos que defendem que houve apologia— dizem não ter sido acolhidos pela universidade.
"A gente considera que houve apologia do nazismo, o que é uma agressão a todos os corpos que foram exterminados e aniquilados por esse regime", diz Yuri Anekya, representante do Cacs (Centro Acadêmico de Ciências Sociais).
"Não teve nenhuma intervenção de qualquer servidor, inclusive por isso a gente tem reforçado a necessidade de um protocolo. Havia somente um segurança", diz Anekya.
O Ifcs, instituto onde houve a agressão, compilou em uma cartilha regras para situações de conflito. A orientação impede que professores e estudantes façam contenção física ou condução à força de pessoas para fora do campus. Diz que a retirada de pessoas de um prédio público deve ser solicitada se tiver fundamento objetivo, como risco à segurança ou perturbação da ordem.
Os alunos que participaram das agressões afirmam que Araujo proferiu injúria racial contra Deivid Lima, estudante de direito que deu a ele voz de prisão na sala de aula por apologia do nazismo.
Lima afirmou ter sido chamado de "macaco" e agredido com puxões no cabelo. Araujo nega a injúria e diz ter se defendido do espancamento.
"Eu gostaria de voltar àquele espaço. É um ambiente que até então eu gostava, apesar dos pesares. Mas eu não me vejo no futuro conseguindo voltar a frequentar aquele prédio. Não só pelo estigma que eu vou carregar, mas principalmente por temer pela minha vida."
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