Para 8 em cada 10 empresários do setor industrial, a alta do juros é o maior obstáculo na obtenção de crédito de curto e médio prazo, segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI). A taxa Selic, hoje a 15%, está no maior patamar em quase 20 anos.
No caso de crédito de longo prazo (com vencimento acima de cinco anos), o percentual de empresários que culpam a Selic pela dificuldade em obter financiamento é de 71% ?ou seja, 7 em cada 10.
Segundo as empresas, outro obstáculo é a necessidade de garantias reais, como imóveis. Para 32%, a obtenção de crédito de médio e curto prazo se torna mais difícil devido a essa exigência, enquanto 31% acreditam que o mesmo ocorre no caso do crédito de longo prazo.
A pesquisa da CNI, divulgada nesta segunda-feira (19), obteve resposta de 1.789 empresas industriais, sendo 713 pequenas, 637 médias e 439 grandes. O questionário foi aplicado entre os dias 1º e 12 de agosto de 2025 ?dois meses após a Selic atingir o patamar de 15% pela primeira vez.
Procurado, o Banco Central afirmou que não iria se manifestar sobre o resultado do levantamento.
Críticas ao BC
A manutenção da taxa básica de juros elevada fez Gabriel Galípolo, presidente do BC, virar alvo de críticas de integrantes do governo e do setor privado. A taxa chegou a 15% em junho de 2025 e se mantém ainda sem previsão para ser reduzida.
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, já criticou em mais de uma ocasião a decisão do Copom (Comitê de Política Monetária) em manter a Selic no patamar atual.
"Eu não sou diretor do Banco Central. Se fosse, votava pela queda, porque não se sustenta 10% de juros reais", afirmou o ministro em novembro, ao ser questionado sobre a taxa.
Tecnologia é a mais afetada
Segundo Renan Pieri, professor do departamento de planejamento e análise Econômica da FGV (Fundação Getulio Vargas), a indústria é o setor mais afetado pela alta da Selic, devido à necessidade maior de capital e investimentos de grande porte. Os juros altos reduzem a quantidade de crédito na economia, o que, por sua vez, diminui o investimento no setor.
"A taxa em 15% da Selic e um juros real um pouco acima de 10% inviabilizam uma série de investimentos. Quanto maior for a taxa de juros do mercado, a quantidade de projetos que se pagam é menor", afirma.
Setores com maior intensidade tecnológica, como montadoras de veículos, metalúrgicas e a indústria química e petroquímica, enfrentam uma desindustrialização prematura no Brasil, segundo estudo publicado pelo Nereus (Núcleo de Economia Regional e Urbana) da USP. O país pode ter dificuldade para retomar o terreno perdido em parte dos segmentos, de acordo com a pesquisa.
De acordo com Marcio Guerra, superintendente de Economia da CNI, o impacto dos juros elevados é uma preocupação constante do setor, pelo desestímulo ao investimento e efeitos à captação de recursos pelas empresas.
"O BC leva em consideração ferramentas, modelos, expectativas. Há um racional por trás das decisões. O que pesa a mão é a questão do conservadorismo ou desconfiança de alguns resultados", afirma.
Para Renan Pieri, da FGV, o trabalho do Banco Central é correto, já que permitiu estabilizar os preços e colocar a inflação dentro da meta.
Inflação fechou o acumulado do ano em 4,26%, segundo o IPCA
A inflação fechou o acumulado do ano em 4,26%, segundo dados do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) divulgados neste mês, abaixo do teto de 4,5% da meta perseguida pelo BC.
"O remédio é amargo demais, mas não é culpa do BC", diz Pieri. "Tem que ver como a gente, enquanto sociedade, consegue organzar o Estado de modo a conseguir pagar menos juros para quem for comprar dívida pública."
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