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Acidente da Gol mantém dor de parentes 20 anos após tragédia

Acidente com o voo 1907 da Gol com jato Legacy

Acidente da Gol mantém dor de parentes 20 anos após tragédia
FAB
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Aqueles dias vêm e voltam à memória repletos de sentimentos.

A voz de Neusa Felipetto Machado, 76, ficou ao menos três vezes embargada ao falar com a reportagem sobre as duas décadas sem Valdomiro Henrique Machado. O casamento de 34 anos entre os dois foi oficialmente interrompido em 12 de outubro de 2006, quando ela reconheceu que aqueles "pés tortos" no IML (Instituto Médico Legal) de Brasília eram do marido.

"A gente tinha uma brincadeira e eu dizia que seus pés eram tortos", afirma a psicóloga.

O consultor Machado estava em um Boeing 737, da Gol, que fazia o voo 1907, de Manaus para o Rio de Janeiro, com escala em Brasília. O avião colidiu no ar com um jato executivo Embraer Legacy 600, de matrícula norte-americana, que voava de São José dos Campos (SP) para Fort Lauderdale (EUA). Nenhuma das 154 pessoas a bordo da aeronave comercial sobreviveu.

O choque ocorreu às 16h56 do dia 29, a cerca de 37 mil pés de altitude, na região da Serra do Cachimbo, no norte de Mato Grosso.

O Boeing da Gol perdeu cerca de um terço da asa esquerda, ficou incontrolável e acabou se desintegrando durante a queda em uma área de mata fechada.

O Legacy ficou sem parte da ponta da asa e sofreu outros danos, mas permaneceu controlável e pousou na base aérea do Cachimbo, no sul do Pará. Os dois pilotos foram condenados, mas não cumpriram pena no Brasil, e atualmente moram nos Estados Unidos. Havia mais cinco pessoas na aeronave.

"Me ligaram no dia 11 à noite. Eu esperava que fosse alguém dizendo que ele tinha sido encontrado deitado, contando piadas aos indígenas, que ele iria aparecer naquela hora. Mas ligaram para dizer que tinham encontrado o corpo, que era para ir ao IML", conta.

Um ano depois do acidente, Neusa voltou à fazenda Jarinã, a 40 quilômetros do local da queda do avião da Gol, onde a FAB (Força Aérea Brasileira) montou um centro de operações para resgatar os corpos. Para lá levou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, da qual o marido era devoto -coincidentemente, ela o reconheceu no dia de homenagem à santa.

As lembranças ficam mais fortes sempre que ocorre um acidente aéreo -Neusa conversou com a Folha de S. Paulo algumas horas após os destroços de um helicóptero em que estava o cantor Rick e outras quatro pessoas (todos morreram) ter sido achados na última terça-feira (22), em Santa Catarina.

"A vida segue, mas a cadeira dele vai estar sempre vazia", afirma a viúva sobre a saudade do marido.

Para algumas dessas pessoas é difícil tocar no assunto até hoje.

É o caso de Mariana Assad, 76, mãe do estudante de medicina Átila Antônio Assad Rezende, morto aos 24 anos no acidente.

Coube à tia ir ao aeroporto buscar informações e ficar à frente de momentos polêmicos na época.

Salma não teve coragem de ver o corpo do sobrinho no IML. Mas sabe que estava praticamente intacto, preso à poltrona 5A pelo cinto de segurança, pelas fotos que depois viu dele ainda na mata.

Passaram duas décadas e apesar disso, ela se choca com as pessoas que não sabem do acidente. "Participo de vários grupos e preciso contar o que aconteceu com meu sobrinho."

A tia tem conversado com outras mães e parentes de quem estava naquele avião. Planejam se encontrar na próxima terça-feira (29) no Jardim Botânico de Brasília, onde há uma placa em homenagem às vítimas do voo 1907.

FONTE/CRÉDITOS: Jcnet (Por Fábio Pescarini | da Folhapress)
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