A discussão sobre Inteligência Artificial no mercado de trabalho começa a mudar de foco. Se nos últimos anos o debate esteve concentrado na possibilidade de substituição de empregos, especialistas afirmam que a transformação mais profunda será outra: profissionais passarão a dividir suas atividades com "colegas digitais", agentes de IA capazes de executar tarefas administrativas, analisar informações, acompanhar processos e apoiar decisões.
O conceito, que parecia futurista há pouco tempo, já faz parte do planejamento das grandes empresas. O Microsoft Work Trend Index 2025 elaborado com base em entrevistas com mais de 31 mil profissionais, de 31 países, aponta que 82% dos líderes consideram este um ano decisivo para repensar a estratégia operacional de seus negócios e 81% esperam integrar agentes de IA de forma moderada ou ampla à estratégia corporativa nos próximos 12 a 18 meses. O estudo ainda apresenta o conceito de Frontier Firms, organizações formadas por equipes híbridas, compostas por pessoas e agentes inteligentes trabalhando lado a lado.
Na avaliação do especialista em Inteligência Artificial, Mauricio Frizzarin, que é fundador e CEO da QYON - empresa norte-americana, com unidade em São Paulo, que se dedica ao desenvolvimento de softwares com IA para a gestão empresarial - essa mudança representa uma das maiores transformações no ambiente corporativo desde a popularização dos sistemas de gestão (ERPs).
"Durante décadas, as empresas contrataram pessoas para executar tarefas. Agora, começam a contratar agentes digitais para executar parte dessas atividades. Isso muda completamente o papel dos profissionais. O diferencial deixa de ser fazer mais tarefas e passa a ser coordenar, supervisionar e tomar decisões melhores a partir do trabalho realizado pela Inteligência Artificial", explica Frizzarin.
Segundo o especialista, os agentes de IA não devem ser encarados como concorrentes dos colaboradores, mas como assistentes especializados capazes de assumir rotinas repetitivas, liberando tempo para atividades estratégicas. "O profissional deixa de gastar horas organizando planilhas, procurando documentos, respondendo solicitações repetitivas ou consolidando informações. Em vez disso, passa a interpretar dados, resolver problemas complexos, negociar, inovar e tomar decisões. A tecnologia executa; o ser humano direciona", afirma.
Essa mudança também altera o perfil das competências valorizadas pelas empresas. O próprio estudo da Microsoft prevê o surgimento do chamado "agent boss", profissional responsável por criar, treinar, supervisionar e coordenar agentes inteligentes dentro das organizações. Em cinco anos, líderes esperam que suas equipes estejam treinando agentes (41%), desenvolvendo sistemas com múltiplos agentes (42%) e gerenciando esses colaboradores digitais (36%).
Na visão do especialista, a adaptação começa muito antes da escolha de uma ferramenta. "Os profissionais que mais se destacarão não serão necessariamente aqueles que dominarem programação ou Inteligência Artificial, mas os que aprenderem a trabalhar em conjunto com essas tecnologias. Assim como ninguém compete com uma calculadora para fazer contas, ninguém deveria competir com um agente de IA para executar tarefas repetitivas", ressalta.
Frizzarin afirma que existem cinco atitudes capazes de acelerar a adaptação e preparar os profissionais para trabalhar com "colegas digitais". São as seguintes:
-Desenvolver pensamento crítico: a IA gera respostas; cabe ao profissional questionar, validar e decidir;
-Aprender a delegar tarefas aos agentes: identificar atividades repetitivas que podem ser automatizadas;
-Fortalecer competências humanas: criatividade, negociação, liderança, comunicação e inteligência emocional tendem a ganhar ainda mais relevância;
-Aprender continuamente: acompanhar a evolução das ferramentas e experimentar novas aplicações no dia a dia;
-Entender processos de negócio: quanto maior o conhecimento sobre o funcionamento da empresa, melhor será a capacidade de orientar e supervisionar agentes inteligentes.
Para o executivo, o maior risco não é a chegada da Inteligência Artificial, mas permanecer trabalhando exatamente da mesma maneira. "Os profissionais não perderão espaço para quem usa IA, mas para quem sabe trabalhar com ela. A próxima geração de colaboradores será formada por pessoas capazes de liderar equipes híbridas, nas quais humanos e agentes inteligentes atuam de forma complementar", alerta Frizzarin.
O especialista ressalta, ainda, que a adoção dessa tecnologia exige governança, segurança da informação e supervisão humana permanente. Segundo ele, agentes inteligentes não substituem julgamento, responsabilidade ou ética, mas ampliam significativamente a capacidade operacional das equipes quando implementados de forma estruturada.
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