Investigação da CGU (Controladoria-Geral da União) e da PF (Polícia Federal) indicam que a suposta fraude na área da saúde em municípios do Rio Grande do Norte envolvia distorções propositais na distribuição de medicamentos, como a falta de entrega em alguns postos de saúde e o excesso de remédios em outras unidades.
As investigações indicam possíveis irregularidades em contratos para fornecimento de insumos à rede pública. Há suspeita de fraude de licitação e desvio de recursos.
Embasada em decisão do TRF-5 (Tribunal Regional Federal da 5ª Região), a PF e a CGU fizeram nesta terça (27) uma operação para cumprir mandados de busca e apreensão. A polícia apreendeu R$ 251.205 em espécie. Parte do dinheiro foi encontrado em isopores.
Em 2024, segundo a PF, houve repasse à prefeitura de mil unidades de succinato de metoprolol 100 mg, usado no tratamento da hipertensão e insuficiência cardíaca.
Os medicamentos foram entregues aos postos com prazo de validade residual de apenas um dia. A falha resultou em perda total dos produtos.
Ainda em Serra do Mel, o centro de abastecimento destinou 600 comprimidos de prednisona 5 mg para um posto de saúde que tinha consumo médio mensal de 25 unidades. A prednisona é um corticoide de ação anti-inflamatória e imunossupr essora.
O posto já possuía em estoque 586 comprimidos e passou a ter estoque correspondente a dois anos de consumo. Como os remédios tinham prazo de validade de um mês, 1.154 unidades foram descartadas.
A PF vincula a suposta fraude ao ex-vice-prefeito de Serra do Mel, José Moabe Soares (PSD). A investigação aponta Moabe como sócio de fato da empresa Dismed.
A Drogaria Mais Saúde é outra empresa suspeita de envolvimento na fraude. A reportagem não conseguiu encontrar representantes.
A PF identificou diálogo de Whatsapp em que o advogado de José Moabe repassa o andamento de auditoria da CGU.
A prefeitura disse que a ação da terça não resultou em busca a órgãos do município e que colabora com as autoridades.
Cinco prefeituras do estado estão sob investigação, entre elas Mossoró, segundo maior município potiguar, com 264.577 habitantes, atrás apenas de Natal [cerca de 751 mil].
Em Mossoró, a o volume pago pela prefeitura à empresa Dismed entre 2021 e 2025 é de mais de R$ 13,5 milhões. A PF afirma que o principal sócio da Dismed, Oseas Monthalggan, é próximo ao prefeito Allyson Bezerra (União).
Prefeito desde 2021, Allyson é apontado como pré-candidato ao governo do estado nas eleições deste ano. Ele deve concorrer contra o grupo da atual governadora Fátima Bezerra (PT).
Em vídeo publicado na terça, Allyson vinculou a investigação ao ano eleitoral.
Em diálogo captado pela PF, sócios da Dismed afirmam que há suposto esquema de propina envolvendo contratos com a prefeitura de Mossoró. Oseas chama o esquema de "matemática de Mossoró".
"Mossoró tem uma entrega de R$ 400.000, desses ele entrega R$ 200.000. Dos R$ 200.000 [restantes], ele pega 30%. Fica R$ 140.000. Mas temos que pagar R$ 100 mil a Allyson e Fátima; é 10% de Fátima e 15% de Allyson. Só ficou R$ 30.000 para a empresa."
participação de Allysson Bezerra nos esquemas de corrupção, a assertiva revela o cuidado que este demonstra para se manter oculto nos esquemas de corrupção", diz a decisão do TRF-5. A decisão não detalha quem é Fátima.
Oseas é suspeito de usar a conta bancária do filho menor de idade para receber depósitos fracionados, indício, para a PF, de "burla a identificação de depositantes". Ele não foi encontrado pela reportagem.
As empresas tinham receita composta essencialmente de recursos públicos e dados do COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) apontam indícios de aumento exponencial de patrimônio e faturamento, remessa de recursos a pessoas politicamente expostas e alto volume de movimentação.
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